Resumo e reflexões: 2025

O ano de 2024 foi tal como uma montanha russa; testou minhas capacidades mentais, minha paciência e meu controle emocional de tantas formas que ao chegar ao fim do ano eu estava completamente esvaziada de tudo. Um cansaço extremo, incontáveis noites sem dormir, quando dormia tinha terrores noturnos e acordava em pânico, e por muitas vezes eu sequer queria acordar. Em dezembro meu corpo resolveu parar de funcionar pela primeira vez. No trabalho. Eu não consegui me recompor. Não consegui parar de chorar. Não conseguia tirar o peso de toneladas das costas. Eu me sentia como Atlas, levando o peso do mundo sobre mim.

Em Janeiro, dia 03 de 2025 houve uma intervenção. Fui afastada de casa e do trabalho, e aos poucos, tive meus amigos e meu marido cuidando de mim. E aí começaram as medicações. Eu não queria tomar, mas precisava. Nem imaginada que os remédios estavam errados. 
Aos poucos, fui conseguindo me manter menos reativa, mas a verdade é que eu fervia por dentro, não sei de onde surgiu tanta raiva e tanta revolta. Eu tinha certeza que, eventualmente, ainda naquele ano, em algum momento eu iria me matar. Eu pensava nisso dia e noite. Eu cheguei a ponto de esquecer das pessoas que eu amava, dos meus amigos, dos meus pais, dos meus gatos, de todo o esforço que fiz para estar onde estava, pensava estar sozinha em um abismo, onde nem a voz de Deus eu conseguia ouvir mais. Mesmo assim, me forcei a voltar a trabalhar. Me forcei a tentar. Não era sobre viver e sim sobreviver um dia de cada vez.

No dia 11 de fevereiro meu gatinho amado Freud morreu. No meu colo. Tentei fazer massagem cardíaca, respiração boca a boca. Eu suava, mas ele ja havia dado seu ganido final. Seus olhos ainda abertos olhavam para mim. Eu fui a ultima coisa que ele viu. Assim, inesperadamente, às 5h30 da manhã ele se foi, vítima de um  infarto fulminante. Eu segurei sua cabeça e seu corpinho fragil junto de mim, eu não consegui chorar. Minha mini-vaca partiu, e levou consigo minha coberta e um pedaço do meu coração.

Voltei a trabalhar. A cabeça em mil pedaços. A falta de descanço, a falta de sono, tudo ao mesmo tempo, começou a atrapalhar minha produtividade. Eu estava instável. Dava respostas mal-criadas no trabalho, não conseguia focar, as vezes até esquecia o que estava fazendo, falando, era como se meu corpo estivesse presente mas a mente não. Meu cérebro não parecia estar querendo cooperar comigo. O apoio psicológico daqui me mandou parar a medicação. Disseram que eu deveria viver o luto.

Então eu parei. 

O pouco progresso que eu havia feito sumiu. Tive que iniciar um tratamento psicológico e estava certa de que não iria tomar medicação. Que eu iria aprender a lidar, e que eu sozinha, com a minha força iria sair do buraco, como todas as outras vezes. 
Eu estava muito enganada.

Em tratamento, decidi reiniciar a medicação, mas faria isso perto da minha família, onde eu estaria amparada. Eu não fazia ideia do quão errado isso poderia correr. 

O período de adaptação é péssimo. A sonolência, irritabilidade, ansiedade, nervosismo, paranóia, a raiva de tudo e de todos... Isolamento, e por consquencia, a tendência em afastar as pessoas. E foi nesse estado que eu fui para o Brasil. Eu não queria só que doesse em mim, eu queria que doesse em todos, e nem sequer sabia dizer o porquê. Minha família não merecia isso. Os meus pais não mereciam isso. Meus amigos não mereciam isso. 

Eu encontrei a pior de todas as minhãs versões e expus minha podridão a todos. Não sei como ainda houveram pessoas que escolheram ficar. 

Quando voltei pra minha casa, e retornei ao trabalho, minimamente adaptada à medicação, meu corpo começou novamente a dar sintomas estranhos. Enxaquecas, pressão alta que nunca tive, dormencia nos braços, pernas e boca. Tremedeiras, dores no corpo, principalmente costas e nunca, apagões de minutos, confusão mental, eu tentava falar e não conseguia. Uma vez, no fim do meu expediente, eu achei que ia morrer. Primeiro veio o desespero, acho que é resposta automática do corpo por não entender o que estava acontecendo, e depois veio uma sensação de calma, talvez finalmente eu fosse atravessar para o outro lado, e seria um alívio para todos. 

Fui interditada de novo depois de uma crise de pânico. Não conseguia controlar meu corpo, eu só tremia e chorava. Então, nova medicação. Nova adaptacão. 15kg a menos. Sem fome. Sem energia. Sem vontade de viver. Eu não conseguia fazer nem o básico. Nem escovar os dentes, nem tomar banho, nem fazer comida, nem falar  com ninguém, nem mandar mensagem. Não tinha prazer em nada. NADA. Daí algueém finalmente dizer "depressão grave" e "ansiedade generalizada". O problema é que sempre fui assim. E, eu achava que era drama, melancolia, etc. Foi preciso meu corpo dizer "chega!" pra realmente a ajuda chegar. 

E assim, aos poucos eu fui ficando melhor. A medicação já foi ajustada depois disso, mas acho que ainda não estamos lá. 
Aos poucos estou aprendendo como funcionar novamente. Já fazem 10 meses que eu estou em casa. Consegui  passar no exame teórico para tirar a carta de condução. 
Me sinto absolutamente perdida sobre o que fazer com a minha vida. 
Me cobro todos os dias por ainda estar em casa. 
Mas sei que os 100% não serão tão rápidos, afinal eu só estou sendo tratada a pouco menos de um ano. Estou reaprendendo a não viver no modo sobrevivência, ou com 2% de bateria. Eu não fiquei doente do dia para a noite, então não será do dia para a noite que eu serei "curada".
Estou fazendo o melhor que consigo, dentro daquilo que meu corpo permite.
Ainda durmo e acordo exausta. Mas agora já tenho apetite. Já consigo fazer comida, já consigo fazer as coisas básicas, e as vezes, consigo ver as coisas como se o copo estivesse meio cheio.

Se eu ainda penso em morrer? Sim. Mas já não é todo dia. E cada dia penso menos sobre isso.
Se eu ainda penso que sou um caso perdido e sem futuro? Sim. Mas, o tempo vai passar eu fazendo algo sobre a minha vida, ou não. Então, já fui atrás do histórico escolar.
Eu não sei o que esperar sobre 2026. Apenas gostaria que fosse um ano melhor do que o ano passado. Só isso. 

Ainda vivo.
Um dia de cada vez.
Bom ano para nós.

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