São essas as partes de mim

Eu tenho um pensamento que quando preciso resolver coisas dentro de mim, tenho algumas versões de mim mesma em idades variadas debatendo entre si numa mesa redonda numa salinha branca dentro da minha cabeça. Há uma versão com 5 anos, uma com 8, outra tem 12 anos, outra tem 16, 19, 24, 26 e eu.

Meu eu de 5 tem cachinhos. Está sempre sorridente. Mas quando olho nos olhos dela sinto vontade de abraçá-la apertado e chorar. 

Minha versão de 8 anos ainda está tentando ser estilista e cantora e desenhista e escritora. Ela é a mais talentosa de nós todas. Adoro os desenhos que ela faz. Mas ela é calada e brinca sempre sozinha.

A Jenni de 12 é uma criança confusa. Ela não quer ser criança. Quer viver coisas de adulto. Quer trabalhar, quer estudar fora, quer ter o cabelo colorido, quer colocar piercings, quer ter tatuagens, quer ir pra igreja, quer namorar, quer viver um conto de fadas, quer escrever livros… Ela é a mais sonhadora de nós todas, e é a que mais se orgulha de mim. Toda vez que ela me vê, ela pula de alegria e êxtase por hoje eu poder fazer todas as coisas que ela sempre quis fazer e nunca pode..Ela é o passarinho preso na gaiola.  

Meu eu de 16 está perdida demais dentro da sensação de culpa, desespero e tristeza profunda  e paixão obcecada que ela sequer nota a presença de nós outras todas aqui.Meu eu de 16 já tentou desistir de viver uma vez. Só não deu a cabo suas decisões pelo medo de ir para o inferno, e nunca poder ver Deus. Mas não há nada nesse mundo que a faça querer ficar, além do unico desejo ardente de poder ver a face Daquele que criou todas as coisas. A fé dela é confusa. Não sabe distinguir o que é amor e o que é dor. Ela aceita que os dois são a mesma coisa. Não há para onde fugir, não há de quem se esconder. Não há quem a possa ajudar. Ela só consegue dormir depois de muito bater em si mesma. está cheia de cicatrizes e hematomas e mordidas. Causadas por ela mesma. Ela faz isso para escapar da dor abismal que sente dentro do próprio peito. Ela perdeu a melhor amiga, perdeu o primeiro namorado, perdeu qualquer senso de segurança. E seu refúgio, que era Deus, nunca foi. Porque sempre lhe vinham os chicotes às costas. 

Meu eu de 19 pesa 56 quilos. Quando olho pra ela eu sinto dó. Mas ela não permite que eu me aproxime. Ela é a mais bonita de nós todas. Está no auge da sua beleza. Mas também, no auge da insanidade. Estamos todas unindo esforços pra que ela não desista, porque ela desistiu, mais uma vez, outra tentativa. Essa tem uma intervenção divina direta nas costas. Se jogou em frente a um caminhão. Não sabe como, mas foi parar no lado oposto da estrada, sentada na grama, junto à bicicleta que ficou retorcida. 

A Jenni de 24 pesa 86 quilos. Finalizou uma faculdade com um canudo vazio. Em abril de 2017 ela desistiu de viver. Novamente. Foi preciso um milagre para que estivéssemos aqui hoje. E as vezes ainda lembro do dia que a fez mudar de ideia. Houve uma segunda intervenção divina. As vezes ainda nos questionamos sobre o tamanho da dívida que temos com o nosso anjo da guarda. Essa versão minha está completamente perdida da realidade de que ela nunca será o suficiente, pra ninguém nem pra ela mesma. Ela está afundada no sentimento do fracasso e somente Deus pode ajudá-la, mas parece que a ajuda nunca chega. E a caminhada está cada vez mais difícil. Ela está cansada. 

Meu eu de 26 está colectando os cacos de si mesma.. Encontrou algo precioso. E quero dizer a ela que depois desse achado, a vida dela nunca mais será a mesma. Ela está de mãos dadas comigo, embarcou na longa jornada que estamos caminhando agora, e graças às decisões dela, estamos aqui. Agradeço por sua força. 

E temos eu. Com 30. Sou senhora. Meu sobrenome agora é outro. Estou perdida no meio do monte de habilidades que aprendi e que não uso pra nada. Estou livre e sinto-me cansada dessa jornada. Sinto-me cansada por todas nós. 

Sinto que estou num momento de prestar atenção. Observar. Porque estou  cansada de sentir. estou lutando com todas as minhas forças para não desistir e não desisto pelo grande respeito e reverência que tenho por todas nós. E talvez, uma parte de mim pensa agora que faria sofrer muito quem quer que ficasse para trás, e as pessoas que eu amo não merecem esse sofrimento. Então, mesmo com minha armadura partida e flechadas por toda a parte, com o capacete partido ao meio, sem espada e sem escudo, eu continuo na batalha. na linha de frente, pra onde são mandados os que morrem primeiro. E ainda assim, não é chegada a minha hora. 

Despedidas são como dar uma olhadela para dentro do abismo do desconhecido. Deixar para trás tudo o que sabe, ou o que achava que sabia, que conhecia, que entendia…

Praticar a arte do desapego e da vida minimalista já é difícil o bastante quando se trata de pertences materiais, mas ninguém diz nada a respeito da dificuldade de desapegar do que nós conhecemos, de emoções, padrões, lembranças, sensações que passamos a vida incessantemente em busca de sentir novamente. 

Estou me prolongando nessa despedida, e não sei se estou à espera de algo. 
Mas quero me despedir. Quero deixar pra trás minha bagagem que já não é mais minha, mas que afinal é minha. Porque é a vida que nós todas escolhemos viver. 

Não consigo enxergar a versão mais velha e sábia. Aquela que sabe o que dizer e como dizer. Aquela que sabe resolver tudo. Que aguenta tudo. Aquela que saiu da batalha, cheia de cicatrizes, mas que é a comandante, com uma nova armadura reluzente e um grande sol brilhando no peito. Será que ela existe?

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