Mesa de Conferência Mental. parte 1
Em 23 de Dezembro do ano passado, eu quebrei. Minha mente não suportou, queimou todos os pavios e botões da Console e tive de ser Interditada, afastada por 35 dias. - não vou entrar em detalhes, não tenho dinheiro para advogados para tomar uma ação. Portanto, vou apenas dizer as repercursões em mim.
Estou com 31 anos hoje.
Eu sempre disse que eu era diferente, que algo comigo não estava certo. Há pelo menos um ano que digo que estou constantemente exausta, cansada, esgotada, como se estivesse com a bateria quebrada, já no carregador, mas que nunca carrega mais do que 1%. Eu disse que talvez fossem hormônios, talvez falta de vitaminas. Quando eu disse que eu era deprimida, ninguem nunca acreditou. Já que sou alto- astral e estou sempre "tão feliz o tempo todo: contando histórias, fazendo piada, fazendo as pessoas rirem"... As pessoas diziam que eu estava errada, que era coisa da minha cabeça, que eu não tinha depressão nenhuma. Afinal, eu conseguia fazer as coisas. Que o que eu tinha era preguiça e falta de disciplina e falta de rotina. Ok.
Daí, quando quebrei, fui sozinha ao médico. Eu e minhas dores, e meu descontrole emocional, incapaz de formar uma única frase sem desabar em água. O médico disse que eu deveria descansar. Que eu parecia ter Transtorno de Ansiedade Generalizada. Então eu disse ao doutor, que além dos pensamentos intrusivos e da minha impossibilidade e inabilidade de descansar, eu queria morrer. Fugir. Qualquer um dos dois.
Então, eu sai do consultório com duas medicações, pra tomar todos os dias, duas vezes por dia, cada um.
Uma pra eu descansar, outra pra eu conseguir ficar menos ansiosa. O médico não me disse qual era qual.
Fiz 15 dias de tratamento. Nos primeiros 5 dias, fui afastada de casa e socorrida por uma amiga, porque eu queria morrer. Meus queridos amigos vieram me buscar, cuidaram de mim, e me deixaram voltar pra casa quando viram que eu estava mais "estável". No décimo dia do tratamento, fiz o retorno com o médico e reajustamos a tomada dos remédios, sendo um deles apenas SOS. Foi nessa semana que perdi a minha bolsa com os remedios todos enquanto arrumava a casa. Fquei DOIS dias sem tomar a medicação.
No segundo dia sem a minha medicação, quando uma amiga minha conseguiu me trazer e me deu, literalmente 3 caixas, foi quando eu descobri que na verdade o remédio que estava fazendo efeito em mim, e me deixando estável, e me dando energia para fazer as coisas, e fazendo dormir melhor, e me fazendo gerir melhor meus sentimentos, com uma maturidade que eu nunca tive, que me deixava concentrada e produtiva, e que principalmente tirava da minha cabeça as vozes de suicídio que eu ouço desde que tenho 13 anos, era um medicamento antidepresivo.
Para além da Ansiedade generalizada.
ALGUEM DESCOBRIU, FINALMENTE, QUE O QUE ESTAVA ERRADO COMIGO ESSE TEMPO TODO, ERA DEPRESSÃO!
Bem. o que eu não estava nada à espera, era da explosão de raiva que senti com a falta do remédio e com a descoberta do diagnóstico, porque honestamente, não quero aceitar que estou doente.
EU NUNCA SENTI TAMANHA RAIVA NA MINHA VIDA.
E, depois de muito conversar com meu marido, e ele lá ter conseguido me acalmar e meu remédio chegar e eu voltar a tomar, eu comecei a me dar conta de muitas coisas. E comecei por tentar entender o que essa raiva toda estava querendo dizer.
Eu não conheci a raiva.
Eu tinha dentro de mim:
Alegria / euforia / gratidão: as três eram uma só. Por isso, meus momentos felizes sempre eram MUITO felizes. Tanto que, até hoje meu corpo não tem controle quando estou feliz. Eu pulo, bato palmas, faço dancinhas, dou gargalhadas e choro, quase como uma criança.
Tristeza e Desespero: Esses eram os comandantes do meu console. E, por estarem a tanto tempo no controle, eles encontraram máscaras para colocarem em mim, e que somente pessoas muito atentas conseguiam enxergar por trás do "excesso" de felicidade. Enxergar a tristeza que havia na minha alma. Poucos chegaram a ver. Nem sei se alguem realmente alguma vez sequer chegou a se dar conta, por eu fingir tão bem.
Medo, Culpa e Repressão Sexual: esses estavam sempre juntos. Os melhores amigos mais toxicos que já vi. O Medo sussurando as maiores obscenidades existentes enquanto senta-se ao lado da culpa: "lembra daquilo que você fez? ninguem nunca vai te amar por causa daquilo", "lembra que tua irmã ficou doente, isso é tudo culpa sua", "lembra que as pessoas vão sempre embora, te esquecem? é culpa sua por sumir e não mandar mensagem e não dizer pra elas que vê sente saudade". "lembra que você transou antes de casar, sua pecadora? você vai pro inferno, e quando chegar la vai estar tão desadequada, porque nem o diabo vai querer alguem como você"(...) . A Culpa, por sua vez, está ao canto da porta, ajoelhada no milho, tem correntes de cilício a volta das duas coxas, enquanto bate se em si mesma com um açoite, dizendo repetidas vezes "Deus, me perdoe, eu vou ser uma pessoa melhor." "Deus tem misericordia de mim" "DEUS, ME AJUDE!" "Deus, porque isso dó tanto, não consigo parar de me machucar. Não mereço o alívio. Eu mereço ser punida, eu mereço ser castigada", "Bate nela Galega!", "Deus, eu só quero que esse sofrimento acabe..." "por favor..."
E por fim, supervisora do console, onde há um grande buraco do centro. Quem dava o ok para todas as decisões tomadas pela Tristeza e o Desespero era ela. A Ansiedade. Nós somos amigas. quer dizer, Não consigo me livrar dela né. É tipo a TPM, não posso evitar. Ela já tá ali. Vou fazer o que?
Essas eram as emoções que eu conhecia.
Haviam quartos com portas fechadas: Raiva, Tesão, Autoestima, Autovalor, Desejo, Criatividade...
Tinha também a Narradora e a DJ (com um gosto musical altamente deprimente e duvidoso e ja acordava cantando WTF, too much information)
E em todas as cadeiras que haviam para as emoções, estavan junto aos seus nomes, também escrito: Vítima..
Eu nunca gostei, nem nunca quis que ninguem sentisse pena de mim, ou dó de mim.
Nunca quis que ninguem abusasse de mim, ou risse de mim, ou me odiasse. Eu já fazia isso por mim mesma. Minha maior Bully.
Naquele dia, a Raiva explodiu a portas com dinamites. Botou fogo na consola. Destruiu absolutsmente todo o sistema, e a Ansiedade ficou paralisada, olhando a merda toda pegar fogo e virar pó. Meu corpo respondeu tremendo. Eu queria arrancar minha própria pele e a DJ só tocava no volume mais alto possível "CRAAAAAAWLING IN MY SKIIIIIINNNNNNN".
Toda as gentinhas na minha cabeça ficaram confusas e não sabiam o que fazer. Quem me acalmou, foi o João. Ele conhecia a raiva melhor que eu, pois era ela quem estava no controle da consola dele por toda a vida. Me deu um chocolate quente, um abraço apertado e me deixou chorar. Aquele choro preso a 25 anos.
(cont.)
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