O rebosteio
Hoje acordei apática. Nada de novo. Essa é minha realidade recente. E vou admitir uma coisa: eu gosto de ir trabalhar e fingir que to feliz e bem, porque as vezes até acredito que estou.
Eu não posso mentir e dizer que minha vida é ruim. Isso seria desonesto. Minha vida está ótima.
Tenho um teto, roupas, um cobertor quentinho, tenho gatos, um amor pra chamar de meu pra sempre. Tenho uma casa eletronicamente equipada: consoles, gaming pc, robô de cozinha, até uma trotinete! Tenho trabalho, tenho saúde, amigos, familia... Tenho tudo. E to me sabotando quando esqueço disso.
Parece que estou vendo minha vida acontecer na perspectiva de um espectador. Em 3ª pessoa.
Tem dias como hoje, que eu esqueço de comer. Esqueço de beber água. Esqueço de cuidar de mim. Estou a 3 horas segurando o xixi. Pra quê?
Eu sei que estou assim porque estou ansiosa. Não a minha ansiedade constante. Estou ansiosa porque finalmente, após completar 4 anos que estou fora, vou poder ir visitar o Brasil. Vou poder abraçar meus pais, minhas irmãs. Rever minhas amigas, rever minha familia. E sei que tenho que ir sem expectativas, mas eu tenho. Muitas. E todos os piores cenários estão constantemente aparecendo na minha cabeça. Como eu desligo isso?
Eu convivo comigo todos os segundos da minha vida, desde que eu existo, e ainda não aprendi a acalmar minha mente. Abafar o barulho. Acalmar a intensidão, apaziguar a solidão.
E COMO NINGUÉM VÊ QUE EU SOU ASSIM??
Por isso que digo que as vezes eu sinto que eu sou um personagem. Porque eu filtro TUDO o que eu falo, pra ter certeza de que o que eu vou dizer será algo agradável. E quando não consigo ser agradável eu não falo nada. Eu me fecho. Será que afinal eu não sou assim uma pessoa tão transparente quanto eu acho que sou? Eu tenho ZERO motivos para estar sofrendo. Então porque todo esse sofrimento? De onde vem? O que eu não estou enxergando?
Eu tenho a impressão de que não é uma coisa grande só que acontece e dai vem o rebosteio. Não é isso. São um monte de coisiquinhas de nada que vão se acumulando e vão virando uma bola de merda, e é a última gota que é a invisível, imprevisível. Eu não consigo prever.
Eu não consigo prever no dia a dia que se eu não colocar as roupas no devido lugar, passado uma semana eu vou estar escolhendo onde pisar porque eu não consigo ver a porra do chão. Eu não consigo prever que se a louça não for recolhida ou lavada imediatamente, eu vou esquecer dela e só vou lembrar de novo quando eu já não tiver mais louças limpas, e ai vou ter que lavar tudo de uma vez e vou passar o dia inteiro sem comer, porque eu não posso me recompensar com comida porque a louça não ta lavada e a cozinha ta suja. E ai não vou comer, e vou ter enxaqueca e vou ficar enjoada, e dai mesmo que eu finalize a limpeza eu não vou conseguir comer porque to enjoada e com dor de cabeça.
Ah, e nunca é só lavar a louça. Porque eu tenho que buscar os utensilios espalhado pela casa, e antes de lavar tenho que guardar as que estão na maquina, e que afinal eu esqueci de ligar e que agora são duas maquinas de louça, e dai não consigo secar a louça porque os panos estão sujos, e dai eu começo a lavar a roupa para ter pano, mas tenho que esperar uma das maquinas terminar primeiro porque se eu ligar as duas ao mesmo tempo o quadro de energia vai abaixo, e isso pode queimar os aparelhos da casa. Então eu tenho que esperar. E enquanto eu espero eu passo as proximas horas me perguntando: "porque eu não fiz isso antes de chegar nesse estado??" E entro de novo no ciclo da culpa esmagadora que eu não me sinto uma adulta funcional, responsável e organizada. E me odeio por isso. E falo comigo mesma de uma maneira que eu jamais toleraria que alguém falasse.
Nesse exato momento estou paralisada enquanto penso no que mais escrever pra tirar esse monte de vozes desorganizadas e desconexas de dentro da minha cabeça, enquanto penso que eu já deveria estar a meio do caminho para o mercado, que eu adiei o dia inteiro, para comprar comida para os gatos, e coisas para preparar uma supresa para o João porque amanhã é aniversário dele. E eu quero estar bem quando ele chegar em casa. De banho tomado, cabelo lavado, dentes escovados, um jantar especial feito, com um bolinho de caneca. MAS EU NÃO CONSIGO LEVANTAR DAQUI. Eu to brigando comigo tem umas 2 horas, porque não consigo sair de casa.
Não to conseguindo fazer na força do odio.
Preciso de ajuda.
Mas não adianta ajudar dizendo: "ah, mas você tem que fazer listas" - já tentei, não consigo seguir mais de uma semana. "Ah, mas é só colocar o alarme" - EU NÃO CONSIGO SEGUIR OS ALARMES. Esses joguinhos de imediatismo não funcionam. "Ah, mas você tem que se esforçar mais" - EU NÃO TENHO MAIS FORÇA PRA ESFORAR NADA. "Ah, mas então você não quer mudar. Aceita que você é preguiçosa e pronto, todo mundo é um pouco" - CARA TUA PREGUIÇA TE INCAPACITA???? porque é assim que eu me sinto, incapacitada. Inutil. Esgotada.
Sem contar que eu simplesmente esqueço das pessoas. Não é que eu quero esquecer. Mas se a pessoa não tá ali no dia a dia, eu esqueço dela. Tipo como não existe, até que eu veja algo que me lembre da pessoa, dai eu mando mensagem, e esqueço de ler a resposta, e fica la a mensagem sem resposta pelos proximos 6 meses. Se não tá ali, onde eu possa ver... parece que minha mente apaga. Tipo quando a gente guarda um documento e nunca mais acha.
sei la, to exausta.
preciso mesmo ir ao mercado.
eu vou.
to indo.
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