desatando nós em mim

Eu tive que reler o que escrevi, para ter a certeza de que eu ainda me lembrava das coisas com clareza, ou se eu estava amenizando o que realmente aconteceu, porque agora já se passaram mais de cinco anos, e algumas memórias não julgo dignas de confiança. Não confio cegamente no meu julgamento de tudo o que houve naquele tempo, porque eu não estava em meu perfeito juízo.

Fazem cinco anos. E ainda existe um sentimento - ou melhor alguns sentimentos - muito indigestos quando volto a minha atenção para o que houve entre eu e ele. Não faz sentido aqui escrever "nós" porque nunca houve nenhum nós. Houve ele e eu. E eu sei que são sentimentos indigestos porque eu não ouso falar sobre o que aconteceu. Não ouso sequer relembrar daquele período escuro, solitário, confuso, caótico e por isso, me colocar de frente à mim, e me forçar a lembrar para curar aquelas feridas me trás um imenso desconforto, e eu só quero tapar os olhos e os ouvidos e começar a gritar feito louca "lalalala não quero ouvir... lalala não quero ver... lalalalalalala" Até o momento passar e eu me acalmar. 

Ah, e hoje eu entendo que tudo o que eu sentia que envolvia ele - a insegurança, o medo, as borboletas na barriga, o coração acelerado, e a respiração ofegante, eram FUCKING CRISES DE ANSIEDADE! Imagina só, ficar viciado em estar com uma pessoa porque a simples menção do nome dela te causa uma crise de ansiedade, e literalmente te adoece! WTF. Eu realmente não estava boa da cabeça.

Mas vamos lá. Porque que eu estou remexendo na merda seca? É pra frente que se anda, qual é o sentido de revisitar as lembranças e as emoções? É que eu queria estar psicologicamente preparada para o que vem. Eu quero estar no controle das minhas faculdades, eu quero saber que ultrapassei esse ódio, e esse ranço, e essa dor que eu ainda sinto quando revisito as memórias, que são muito muito doloridas. Eu quero saber que meu ego não vai ficar abalado, de ver agora ele chegar aqui, e ameaçar aquilo que eu julgo "meu território", onde ele não é nem um pouco bem-vindo por mim.

Eu entendo que eu tendo a levar a maioria das coisas como um ataque, e sempre direciono tudo para o lado pessoal. E preciso encontrar um jeito de sair do modo de defesa automática de achar que a vinda dele aqui é uma afronta direta à mim, o que eu sei que não é, pois para ser uma afronta dessa proporção, eu teria que ter sido alguém muito importante para ele, o que nunca foi o caso, como sei bem, eu signifiquei menos que nada *pausa para o riso amargo da ironia que eu senti aqui*.

E, eu preciso falar - ou melhor, escrever sobre isso - quantas vezes eu achar necessário, até que deixe de doer e incomodar tanto quanto agora. Até que eu deixe de me sentir insegura,  até que eu deixe de sentir medo, até que eu deixe de sentir essa raiva, que eu ainda não sei lidar.

Quando lembro do que houve, eu só me lembro das coisas ruins. Lembro da ultima noite que dormimos juntos enquanto ele ainda estava "comigo" (ou eu achava que ele estava comigo); lembro que no dia seguinte, ele apresentou a namorada dele, no nosso jantar de amigos, e todos os nossos amigos que estavam lá, sabiam que ele estava comigo, ninguém entendeu nada, e eu muito menos. Ele não teve a decência de terminar comigo. Mas lá está, na cabeça dele, ele não tinha "nada" comigo, então não fazia sentido "terminar nada", nem explicar, nem dar uma leve satisfação, do tipo: "olha, conheci outra pessoa, eu e você não vai mais rolar...". NEM ISSO!
E depois disso, de ele já estar namorando, ele trair ela comigo, não uma, não duas vezes... entende? Porque eu não entendo. Eu não entendo porque aceitei e me sujeitei a esse papel. Sororidade da minha parte, zero né? E eu acho que ela até hoje nem sabe. E eles casaram! HAHAHAHHA meu Deus do céu, porque isso me incomoda tanto?

A simples existência dele me incomoda. Eu queria que ele fosse pulverizado. Assim, do nada, deixasse de existir. E, enquanto ele tava lá no Brasil, tava beleza, era como se tivesse morto. Pelo menos pra mim, e a vida é minha, então aqui isso é tudo o que importa. Mas não, o cara tá vivíssimo da Silva, e tá vindo pra cá, ele e a esposa (e quando penso nela, penso "bleeerrrgh@ *ânsia*, mas nem conheço o cpf, porque esse ranço todo duma pessoa que nem conheço?).

Então eu to tentando sair da superficialidade dessa sensação de raiva e ranço, porque eu sei que isso é superficial. Não chega na raiz do problema, na raiz do trauma, na raiz do incômodo. Porque eu quero sentar no troninho da vítima e acusar ele de ter sido injusto e cuzão comigo. Então, eu tenho remexido na merda seca muitas vezes nas últimas semanas - ouso até dizer meses. Que é pra ver se efetivamente consigo liberar o perdão e seguir em frente. Porque não posso reclamar da minha vida. Eu tô bem. Eu amo meu noivo. Não é como se eu fosse a velha amargurada dos gatos. Eu tenho alguém com quem me importo, e que se importa comigo. Então, não é pela questão afetiva, e definitivamente não é porque eu tenha sentimentos reprimidos por ele.

E, nesses breves minutos desde que comecei a escrever, fui elucidada de diversas formas sobre coisas profundas que sinto, mas que nunca me dei ao trabalho de prestar atenção. A primeira de todas as coisas, mexe com a frustração da rejeição. A criança ferida que habita em mim teme a rejeição, teme o abandono, teme ser descartada, descartável, desinteressante, esquecida e esquecível. O que a vida toda eu fui. Pelos meus pais que trabalhavam de mais e nunca tinham tempo pra mim, por todas as vezes que esqueceram de me buscar na escola, por cada reunião de pais ou eventos escolares que ninguém nunca compareceu, por cada amiga que me trocou por outra amiga "mais interessante", por cada namorado que me chifrou  - com alguma amiga minha ou não. Por cada vez que dei o melhor de mim para alguém, por alguém e nunca foi o suficiente para fazer a pessoa querer ficar perto de mim, porque eu não era gostável, ou inteligente, ou divertida ou interessante... E foi nesse nível que me feriu tudo o que ele fez. Reforçando dentro de mim aquela crença de que eu era uma pessoa indesejável, e jamais haveria lugar no mundo pra mim. Saber que ele vem pro meu quintal, trás isso tudo. Não é ele que trás, é simplesmente o que eu tenho que lidar, para me desprender das amarras que eu mesma fiz quando me envolvi com ele.

A segunda das coisas que vem a tona junto com tudo isso, é o medo daquilo que talvez eu possa sentir. É que na minha cabeça. a química que tivemos era muito forte, e fiquei tão tão machucada quando tudo acabou que eu sequer conseguia tolerar o toque de outras pessoas... dos namorados que tive. Eu reduzi o contacto físico o máximo que eu podia, porque eu não me sentia nenhum pouco atraente nem desejada, já que ele também, como todos os outros antes e depois não me quiseram. Como se eu tivesse alguma doença contagiosa. A minha autoestima esteve inexistente, adormecida e tem sido resgatada a não muito tempo assim. E é curioso como uma coisa que acontece por um curto período de tempo (oito meses não é nada), pode precisar de anos para tratar e curar, de jeito que falar sobre o assunto já não machuque mais tanto. Eu que o diga. Até hoje ainda não consigo falar sobre o Bruno sem sofrer um pouco. Cada vez menos, mas ainda dói. E já fazem anos pra caralho.. Mas pera, deixa eu voltar meu raciocínio, se não eu me perco.

Então porque o medo? medo de sentir tesão? medo de me sentir atraída? medo de errar com alguém que eu amo? qual é o medo? O medo é falhar comigo mesma. É o medo de admitir que ele teve tanto impacto assim, que a minha forma de viver foi modificada por completo. E a simples vinda dele para cá ativa os meus mais primitivos instintos de sobrevivência, e quero lutar, ou fugir. Só para não ter que lidar. Para não ter que ver. Nunca mais. Porque é difícil ainda, até hoje, admitir que eu não fui o suficiente. E esse trauma de nunca ser boa o bastante permeia todas as fases da minha vida: de quando estive estudando, de quando estive dando aulas, de quando minhas notas nas avaliações e testes chegavam, de cada vez que um superior me convidava para uma reunião, para simplesmente dizer que o meu trabalho era mediano, se não, medíocre, e não merecia nenhum appraisal.

São essas coisas insuportáveis de reconhecer e de aceitar e acolher. É muito difícil acolher meu fracasso. Meu fracasso comigo, porque eu me deixei na mão. 

Curiosamente depois que comecei a confrontar a real raiz de tudo o que sinto, tenho a impressão de que o turbilhão se desfez. Afinal, dentro de mim nunca foi sobre ele, mas é porque é infinitamente mais fácil apontar dedos para encontrar culpados, do que admitir a parcela de culpa que nos pertence ao olhar no espelho. 


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