Nobody yes door.

 Dizem que os sonhos são meios que o nosso subconsciente encontra para poder falar conosco, traz mensagens, respostas, todas aquelas coisas que ficam adormecidas mas não muito.

Eu sempre fui muito sonhadora, meus sonhos.. eles parecem filmes, tem começo, meio e fim, na maioria das vezes. Poucas vezes só meio e fim. E acho curioso porque quase sempre me lembro deles. São sempre muito vívidos, cheios de cores, cheiros, sensações... Muito reais. Ah, e me lembro deles por muito tempo. Anos até. Os mais vívidos, sempre acontecem. Meses ou anos depois. Mas sempre acontecem. As vezes com um detalhe ou outro de diferença. 

Ano passado, eu tinha acabado de me mudar pra esta casa, quando tive um sonho estranho.

Eu estava descendo uma serra, num ônibus escolar, indo para o litoral.

Meu tio favorito dirigia o ônibus, e dentro estávamos eu, ele, a esposa dele e as duas filhas. Quando houve um problema, e o ônibus não freava de jeito nenhum. Era numa descida muito íngreme. Meu tio passou o volante para minha tia, minhas primas se abraçavam no banco atrás do motorista, e eu estava vendo tudo do vidro da frente. Meu tio saiu do ônibus e foi resolver o problema do freio, com o ônibus em movimento. Pouco antes de uma curva perigosa e muito fechada, perto de uma área de refúgio, eles conseguiram parar o ônibus. 

Uma menina com um ursinho no braço atravessava a rua. O carro que virava a curva para subir, não viu ela. 

Num piscar dos olhos, a menina havia sido arremessada na pista, e esse acidente causou mais dois, envolvendo dois carros e uma moto. 

A menina foi lançada, voou e depois rolou e ralou-se toda no asfalto. Mas ninguém pareceu perceber ela, só eu. 

Enquanto todos corriam num turbilhão caótico para chamar o resgate para os outros acidentados, ninguém me ouvia enquanto eu gritava "PEDE AJUDA PRA MENINA! ELA VAI MORRER!"

Eu gritava a plenos pulmões, mas ninguém me dava atenção...

Eu trouxe ela no colo para fora da estrada, e deitei ela no chão. 

O corpinho pequeno, ralado, escoriado, cheio de sangue. A boquinha ensanguentada, o vestidinho florido rasgado... O ursinho tinha voado da mão dela, estava do outro lado da rua. 

Mas ela respirava. Por algum milagre, nenhum osso partido... só muito muito machucada. Muito ralada. E um pequeno rio de sangue descia por sua testa. Eu corri pra buscar o ursinho, e agachei numa pedra ao lado dela, rezando, pedindo para que o resgate chegasse logo, ou para que ela desse algum sinal de vida.

Até que aqueles olhos castanhos imensos se abriram e olharam confusos, primeiro para o céu, depois para mim e depois para o ursinho nas minhas mãos. Aquela fração de segundo que ela me olhou, foi como se eu estivesse vendo meus próprios olhos num espelho muito limpo. Aqueles olhos castanhos viam dentro de mim, enxergavam o mais íntimo e profundo do meu ser. Eu me senti nua diante daqueles olhos castanhos. Me enchi de vergonha, de medo, e parecia que uma solidão, um vazio, um frio absoluto me envolviam, e toda a felicidade que havia, simplesmente deixara de existir. 

Ela esticou a mãozinha frágil, me pedindo o urso. Se sentou e logo depois levantou, esfregando os olhos, como se tivesse acabado de acordar dum sono. Como se não tivesse acontecido nada. Como se fosse só um arranhão, como se tivesse perdido o equilíbrio numa bicicleta. Ela me olhou novamente, com curiosidade. O pequeno rio de sangue agora descia por seus olhos, os lábios estourados, sua bochecha ralada e o nariz delicadinho quebrado também sangrava. Ela sorriu, e notei que faltavam dois dentes da frente. 

"Você está bem?" Lembro de ter perguntado.

"Estou sim.", ela me respondeu pousando a mão no meu rosto. Suas feições mudaram, e ela agora já parecia mais velha, e mais nova. Como uma visão atemporal, como uma personificação do universo. Seus olhos castanhos já tinham visto muita coisa. Seus olhos castanhos presenciaram a criação dos universos, das galáxias, da vida. Ela me olhava com adoração. Com amor. O único olhar de amor verdadeiro que alguma vez recebi, refletiam nos olhos daquela menina. "Eu sempre fico bem". Ela respondeu. E continuou, com sua mãozinha pequena, os dedinhos ralados, descalça de um pé, me disse olhando dentro de mim "E você também vai ficar bem". 

E aí, eu acordei. Soluçando.

Uma dor que doía dentro de mim. Doía de verdade. Dentro do meu peito, no mais fundo do meu ser. A dor vinha de um lugar que eu não conhecia. Não conseguia alcançar. Mas a dor chegava no meu âmago. O desespero era enorme. E eu estava já acordada, mas a minha realidade já não parecia real. Eu queria voltar, e cuidar daquela menina, que, ninguém viu. Ninguém ligava pra ela. 

Eu não conseguia falar, só chorar. E cada vez que eu fechava os olhos, aqueles olhos castanhos imensos olhavam pra dentro de mim de novo. 

Eu entendi porque não conseguia parar. Ela era eu. 

O acidente é a vida. E ninguém me viu. 

Eu sempre levanto, sacudo a poeira, aprumo o vestido, enxugo os olhos e faço de conta que nada aconteceu. Que tá tudo bem, porque eu sou forte. Eu sempre fico bem.

E mesmo que eu não ficasse... Ninguém se importa o suficiente pra dar atenção.. Existem sempre outras coisas mais importantes. Só eu quis cuidar de mim.

Então, dos males o menor. porque, ainda bem que eu tenho eu. 

...

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