Descobrindo a individualidade
É engraçado como levamos tempo pra começar a entender as estranhezas de sermos nós mesmos.
Passamos a maior parte do tempo, na infância e adolescência com aquela sensação de que devemos pertencer. Pertencer à um grupo, fazer parte dos rituais e compartilhar dos mesmo pensamentos e ideias, para "ter um lugar no mundo"; e, conforme a idade avança, essa sensação de pertencimento vai começando a deixar de fazer sentido.
"Porque eu tenho que pensar igual fulano?", "eu não concordo com o que beltrano faz" passam a ser pensamentos frequentes, e então fazer parte do grupo parece irreal, falso e superficial.
Passamos tanto tempo imersos na coletividade que sequer sabemos lidar com nosso "eu" quando estamos sozinhos.
Não estou dizendo que viver sozinho é a melhor solução, não é isso. Nós precisamos de amigos. Amigos, não grupos. Amigos que aceitam e respeitam a nossa individualidade. Não grupos que encarceram e aprisionam no pensar coletivo. Nós somos um grande coletivo de todos os tipos de gente, e na menor partícula de todas, nós ainda somos unidade, indivíduos, e apenas UM. Únicos e versão limitada. Não há ninguém no mundo exatamente igual; e pra mim, me parece um coletivo bem egoísta ao querer apagar as digitais dessa individualidade.
A coletividade nos apaga aos poucos, e torna o "estar só, consigo próprio" uma experiência extremamente desagradável. Leva-se tempo para começar a sequer enxergar que há beleza em si próprio.
Leva tempo para aceitar que está ok não gostar de ir em shows ou lugares lotados.
Leva tempo para aceitar esta tudo bem em não gostar de café.
E que está tudo bem se você só quiser ir para o exterior só para viajar, mas quiser construir sua vida no Brasil.
Está tudo bem aceitar as suas raízes, espirituais e religiosas. Familiares inclusive.
Está tudo bem se você começar a priorizar o tempo que você tem com seus pais, irmãos e avós, ao invés de querer ir viajar com os amigos,
Está tudo bem se você descobrir que detesta cerveja, e que você não vai beber, só porque seus amigos querem companhia - você pode continuar tomando seu suco de laranja de boa.
Está tudo bem se o seu refri favorito for Itubaína.
Está tudo bem se você descobrir, depois dos 20 e tantos anos, que você - que antes fugia de praia como diabo foge da cruz - agora só quer passar um feriado prolongado torrando no sol, das 10h às 17h, e ainda quer pegar aquele por-do-sol maravilhoso na beira do mar.
Enfim, está tudo bem em ser você.
Está tudo bem em se sentir bem com quem você é. Você não precisa dessa culpa, e ela não te pertence. Esses dias são raros, então aproveite quando eles acontecem. São raros os dias em que você pode respirar em paz, e simplesmente aceita que esse é você. Que você não é perfeito. Mas suas imperfeições são perfeitamente aceitáveis, toleráveis, e elas fazem parte de quem você é. Não se apague, não se anule, não se condene ou se castigue por ser você. Afinal, você será a única companhia até seu ultimo dia de vida. Você se conhece mais profundamente do que qualquer amigo ou familiar jamais poderá. E cada dia em que você existe, e vive é um milagre.
Hoje, travo uma batalha com a minha aparência. Mas aguardo pelo dia em que o mesmo nível de aceitação que tenho de mim, da minha personalidade e das minhas preferências possa ser visto externamente, e que eu consiga fazer da minha aparência uma externalização do meu interior.
Por enquanto, meu momento de cura é interno, e não externo.
Estou cuidando de gostar de mim. Estou cuidando de apreciar e gostar de ter minha própria companhia. Estou cuidando de me entender espiritualmente e me acertar com Deus, e atender ao meu chamado. Estou cuidando de gostar de ser eu.
Vai chegar um momento, eu acredito nisso, em que eu vou gostar do que eu vejo no espelho.
Um momento em que eu vá começar a apreciar minhas curvas, minhas dobrinhas, minha pancinha, ao invés de olhar e me sentir enojada.
Meu corpo é um veículo, sei disso. E vai chegar um momento em que eu vá gostar de me ver também, e que eu deixe de cobrir os meus espelhos dentro de casa.
Esse dia vai chegar.
Tá tudo bem se permitir afastar de pessoas que você ama ao perceber que elas são tóxicas e não ajudam em nada na sua jornada em busca do auto-conhecimento, que não aceitam que você queira um futuro "pequeno, e tranquilo" porque elas "querem o melhor pra você", e você deve deixar de sonhar pequeno/baixo.
Se afastar de pessoas que idealizam e projetam elas mesmas em você também é um caminho para a cura. Enquanto você tentar se encaixar num molde de outrem, não dá mesmo pra gostar e aceitar quem você é.
Nesses casos, seja o amigo que ouve. Já diz o velho ditado, que temos dois ouvidos e uma boca porque precisamos ouvir mais e falar menos. E se você fala pouco de si para os outros, eles tem menos oportunidades de rebater o que você diz, consequentemente você se chateia menos e evita situações desconfortáveis.
Seguimos aprendendo.
Desejo que você também aprenda, e respeite e conheça sua individualidade.
É bom ser você mesmo.
Hoje não existe ninguém no mundo que eu desejaria ser além de mim mesma.
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