A vida não é romance

 A vida me atropelou.

Eu devia estar fazendo um monte de coisas, e passo o dia inteiro ruminando sobre a minha incapacidade de me manter organizada para conseguir fazer todas as coisas que preciso para alcançar meus objetivos. 

Não adiantou muita coisa me tornar ambiciosa, quando não encontro em mim a disciplina que se requer para conseguir dar conta. Eu não dou conta. E essa incapacidade me corrói de dentro para fora. lentamente. Como tomar doses homeopáticas de soda cáustica. Todo dia morro um pouco por dentro.

Eu sinto falta de quando as palavras dançam ao meu redor, e consigo exprimir meu ser por meio de frases, que, incontáveis vezes ficam sem fim, porque não concluo meu pensamento. Pensamentos. São muitos. 

Leio o que escrevi e apago incontáveis vezes, insatisfeita com a forma com que as palavras tem saído de mim. Não é ingratidão. Mas me faltam palavras, vocabulário, conhecimento, para conseguir me expressar com coerência e concordância com o que realmente sinto. Não consigo falar sobre o movimento que me move, ou sobre a energia que permeia o universo e que alimenta meu ser e todos os outros. Não consigo falar como os grandes filósofos, doutores, pesquisadores, ou autores que são admirados. O conhecimento me falta. E sei que é pela minha falta que isso me falta. Minha falta de iniciativa. Minha falta de curiosidade. Sempre acostumada e acomodada a aceitar apenas o suficiente, e as vezes nem isso. Nem o mínimo. Eu aceito o que me oferecem. Isso entra em conflito com minha ambição. Minha ambição é vaga. Vazia. Rasa. 

Mas as vezes o pouco é tudo o que têm para oferecer.. Seria feio da minha parte não aceitar o pouco?

Se fosse profunda, como eu já fui, então eu buscaria meios para sanar a falta que falta em mim. 

Eu acho que romantizei demais a vida, influenciada pelas estórias, novelas e romances e fantasias que li, como boa rata de biblioteca que a a adolescente que eu fui era. Mas essa superficialidade é consequência do meu cotidiano e da vida que eu levo. 

Eu me esqueço de mim. Me coloco na estante de mim. Junto com meus velhos livros empoeirados. Fui permitindo o fluxo da rotina me esmagar. E, quando não estou superficialmente feliz ou profundamente triste, estou absurdamente preocupada. Com dinheiro, com contas, com trabalho. Produzir, produzir... Sempre mais. E já nem sei se há muito mais de mim para doar. 

Mais um dia que esqueci o jantar e queimei o arroz porque estava lavando o banheiro, e amanhã preciso ir comprar comida para os gatos. Isso me faz lembrar que tem roupa para lavar, porque estão sempre cheias de pelos, e tenho também que comprar o rolo adesivo para remover os pelos das roupas amanhã no meu horário de almoço, e agora preciso pensar novamente no que fazer para levar a marmita, e tenho que... tenho que... tenho que fazer tanta coisa....

...

Sinto como se a vida estivesse esvaindo de mim como areia entre os dedos. Tento pegar a vida de volta para mim, mas é como são as bolhas de sabão, e quando tateio  cegamente no escuro à procura da vida ao meu redor, ela desaparece de mim. 

Tento buscar dentro de mim, o eu que eu fui, e que esperava ansiosamente por cada amanhecer e cada anoitecer. Sinto saudades de me sentir pequena diante da vastidão do universo enquanto deitada na rua a observar o céu limpo e estrelado, - e que hoje sei que são satélites ao redor da terra, e isso me entristece. Não que eu fosse grande entusiasta astrônoma. Eu só gostava de ver o céu estrelado. Mas aqui embaixo tem tanta luz que ofusca meu objeto de atenção. 

Eu anseio pelo suave toque da água salgada do mar, onde eu mergulho e tudo é silencio, e de repente eu faço parte de algo que é maior que eu, e estou no meu lugar feliz. Eu procuro desesperadamente pelas cores do pôr do sol, mas quando chego em casa, já escureceu e mais um dia perdi esse espetáculo gratuito e eu nem pude aplaudir, pois a cortina já se fechou e o astro já está em seu descanso. 

Eu achava que, em algum momento da vida, de preferencia nesse momento, eu ia ter encontrado aquilo que eu tanto persigo, que eu não sei nomear, nem descrever, mas que eu sei que quando eu encontrar, eu vou saber o que é. Eu busco o que é simples. O cheiro de umidade no ar antes da chuva chegar. A brisa do outono flutuando meus cabelos, levando o verão embora, indicando o início de um novo ciclo de morte para o renovar de todas as coisas. 

E, eu nem perco meu tempo angustiada com as mazelas da vida e do mundo. Não contamino meu pensamento com dores e sofrimento. Pelo menos não de forma consciente. Mas quando vou ver, já estou esgotada, drenada, e nem sei como foi que aconteceu. 

Eu achava que era o amor que eu buscava. O amor no outro. Do outro, para mim. Não é isso.

Eu achava que era felicidade que eu buscava. Mas também não é isso. E, as vezes ela surge numa gorgeta de um euro de uma pessoa que nem comprou o produto que eu vendia, só porque gostou de ser tratado como gente. Com gentileza. Simpatia. Porque eu trato todo mundo que nem gente. Como a gente. Como eu gosto de ser tratada. Com gentileza. Com simpatia. 

Isso é outra coisa que me consome. A forma como aceito que me tratem, que me tratam. Sei lá qual tá certo. Mas eu aceito. A grosseria. A rudez. Os maus tratos. Porque não julgo. As vezes tudo de ruim aconteceu naquele dia. Acordou atrasado, demorou para atravessar a rua, o gato se cortou com vidros e teve que ser levado ao veterinário e gastou dinheiro que não estava previsto, torceu o pé descendo a escada, o salto enganchou no vão da calçada, e um cocô de pombo caiu certeiro no ombro da camisa limpa quando estava entrando na porta do trabalho. Sei lá o que passa no dia de cada pessoa. Então eu não julgo. Quer dizer, as vezes julgo sim. Quando vou ver, já pensei.

Tem outra coisa que eu preciso. Dormir. Dormir bem. Descansada. Como se no dia seguinte eu fosse acordar com um milhão de euros na conta, e pudesse tomar café quentinho com bolo de milho cremoso com meus pais num domingo a tarde. Preciso de mim. Da minha companhia. De silenciar todo o barulho do mundo e ficar por pelo menos um dia só eu e eu, ouvindo a estática de dentro da minha cabeça. 

Tá ficando tarde, e eu preciso terminar de cozinhar. E ainda tenho que tomar banho.
Mal saí de lá, e já tenho que voltar.

Quero descer.

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