dedicado à Rosa que mais se destaca no jardim da minha vida
Eu sei que você está aqui desde antes da minha existência.
Muito antes de eu chegar, você já estava aqui, perfumando a existência, colorindo o mundo com suas cores e tons.
Mas eu queria saber, como você chegou e o que você enfrentou antes da minha chegada, para que suas pétalas tivessem cores tão vivas e bonitas, raízes tão profundas... O que você enfrentou para que conseguisse fazer com que seu perfume tivesse o cheiro da calmaria depois da tempestade? O que você viveu para ter que fazer com que seus espinhos fossem tão afiados, para defender você. Defender você de quem? Porque? Quem cuidou ou não cuidou de você? Quem podou você e te adubou? Quem passou pela sua história e mudou você profundamente, a ponto de não saber distinguir quanto de você é você, e quanto de você é o outro?
Que pessoas passaram pela sua vida?
Quem foram seus melhores amigos quando você tinha 5 anos, 6 anos... Quem foi sua professora favorita? O que ela ensinava? Onde você gostava de se sentar na sala de aula? Você sempre entendia tudo, e foi esperta, ou tinha dificuldades para entender? Do que você gostava de brincar? Aliás... Você gostava de brincar? Você se juntava com seus colegas no recreio para comer? você sempre conseguia comer? dividia o lanche com alguém, ou dividiam o lanche com você? Como você conheceu seus melhores amigos? Quais dos seus amigos de infância ainda são seus amigos? Com quem você deu seu primeiro beijo? Foi especial pra você? Quais eram suas músicas favoritas? Você tinha algum cantor que era apaixonada!? Você sabia dançar?
Como foi ter tantos irmãos? Você gostava de estar em casa, ou sempre preferiu estar em qualquer lugar menos em casa, porque na sua casa não se sentia segura, sentia que lá não era seu lugar? Alguma vez já pensou em fugir? Alguma vez quis deixar tudo pra trás?
Quantas vezes você com 15 anos chorou até dormir? Você teve medo quando um escorpião te picou? Você fazia traquinagens para chamar atenção? Conseguia atenção sempre que queria, ou era difícil ter atenção quando tinha que disputar com tanta gente?
Você se irritava facilmente quando mexiam nas suas coisas e destruíam o que você com tanto suor você conquistou?
Como foi que você conseguiu seu primeiro trabalho? Já tinha saído do ensino médio? Como você se sentia tendo que dividir seu tempo entre estudar e trabalhar?
Você superou ter seu coração partido? Quantas vezes partiram seu coração?
Quantas vezes te ofenderam e você não respondeu?
Quantas vezes te julgaram e você não se justificou?
Ainda dói em você, todas as vezes em que você não disse como se sentia?
Onde você aprendeu que pra ser ouvida tinha que gritar, porque calavam sua voz e sua opinião?
Quem te ensinou que para se sentir melhor, as vezes seria preciso acuar ou mesmo magoar outra pessoa?
Quem te ensinou que quando alguém te faz mal ou não faz algo como você quer, essa pessoa deve ser ignorada, e o problema também? "não se fala mais sobre isso".
Quem te ensinou que para demonstrar amor, não era necessário carinho, mas que presentear era a forma mais eficaz de demonstrar que ama o outro?
Será que se eu tivesse nascido junto com você, tivéssemos estudado juntas na mesma escola, você seria amiga minha? Será que dividiria comigo seu lanche? brincaria comigo de esconde-esconde? Me deixaria trançar suas madeixas? Buscar água com balde na cabeça pra te fazer companhia? Será que você teria me contado sobre cada vez que sofreu? Que brigou com alguém que amava? Será que teríamos sido amigas na adolescência? Que falaríamos uma pra outra sobre os garotos, que choraríamos juntas por causa de meninos, ou por causa de notas? Ou por causa de carência, de nos sentirmos sozinhas? Será que compartilharíamos uma pra outra o medo que sentimos de não pertencermos à grupo ou lugar nenhum? Será que você teria me convidado ao seu casamento?
Será que se a gente tivesse se conhecido em outro tempo, a gente aprenderia a entender e respeitar o sentimento, o pensamento e a opinião uma da outra?
Será que se a gente tivesse se conhecido num outro tempo, a gente aprenderia a ouvir uma à outra? Aprenderia a amar o jeito uma da outra?
Será que a gente teria tido dia de mocinha? fazer as unhas juntas, trançar os cabelos, dançar juntas nas festas juninas? Reclamar daquilo que queríamos mudar em nossas vidas...
Será que se a gente tivesse encontrado um jeito de curar a dor outra, aceitando as imperfeições de cada uma, nós seríamos companheiras para a vida? Será que seríamos parceiras? Sempre apoiando uma à outra, com palavras de incentivo, não com palavras que nos diminuem?
Será que se a gente tivesse um jeito de se comunicar sem se machucar, e a gente pudesse conversar sobre o que sente, sem toda o cargo pesado do julgamento de "fiz certo" ou "fiz errado", a gente finalmente poderia curar o que precisa ser curado no nosso relacionamento?
Será que se eu soubesse mais sobre você, pelo seu ponto de vista, eu teria mais compaixão para aceitar você, e amar você, exatamente do jeito que você é, e não como eu gostaria que você fosse? Aliás, como nós gostaríamos que a outra fosse.
Quando eu projeto o que espero que você seja, e como quero que você aja, e você faz diferente, eu também me sinto frustrada. Porque, de algum jeito, eu gostaria de poder te ajudar a ser uma versão melhor de você mesma, como eu espero que você me ajude a ser.
Que a forma como você me inspira a ser guerreira, trabalhadora, batalhadora, sensível à dor do outro, pudesse ser potencializada pelo fato de eu finalmente aceitar você como você é, e entender o que você viveu para que se tornasse a pessoa que eu conheci quando cheguei.
As coisas que me machucaram não começaram comigo, são de antes de mim. São de antes de você ir pra escola. São de antes dos seus pézinhos gordinhos andarem o chão de terra do sertão, são de antes...
E você só aprendeu o que te ensinaram, você não poderia me ensinar o que nunca aprendeu...
Mas ainda tem tempo, se você quiser.
Eu não escrevi pra te atacar. Eu escrevi porque é a unica forma que consigo me expressar. Eu escrevi porque quero me libertar, e porque quero apreciar a beleza da sua Rosa no meu jardim. Eu escrevi porque quero te entender, quero te conhecer, quero te amar, e quero te ajudar em tudo o que eu puder, com o tempo que temos juntas e compartilhamos desse breve momento de existência.
Eu escrevi porque quero fazer as pazes com você, quero fazer as pazes comigo, e quero que você também faça as pazes com você.
Um batismo não apaga suas experiências. Tá no passado, mas tá lá no seu subconsciente também, e vai emergir numa hora de raiva, de briga, todas as vezes que você se exaltar porque você precisa falar. Você tem que falar. E eu to aqui pra ouvir. Sempre que quiser e toda vez que precisar.
Eu te aceito como você é.
Eu respeito a sua história, e tudo o que você viveu pra chegar até aqui.
Eu estou sendo sincera.
Eu te amo.
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