Convivendo com dementadores
Não é sempre que me sinto bem.
As vezes, precisa só uma coisinha acontecer, pra um monte de outras coisinhas que ficam guardadas submergirem do profundo do nosso subconsciente e nos afogarem nas ondas da angústia.
Eu estive lendo meu blog, desde minhas primeiras postagens, e comecei a observar que sempre escrevi sobre esse vazio. Sempre jorrei minha torrente de pensamentos - meus e intrusivos - sempre expus meus sentimentos, como uma forma de conversar comigo mesma e tentar apaziguar essas tempestades dentro de mim. Mas eu mesma me ausentei de mim quando parei de escrever. E milhões de coisinhas que eu ia engolindo começaram a virar coisas grandes, grandes pesos que eu trazia como se fossem grilhões.
Foi ficando cada vez mais difícil ficar estável. E não por sofrer por amor. Felizmente, já não sinto falta de amor. Mas a vida do adulto atropela a gente. Mil preocupações que se agrupam e misturam todos os sentimentos que a gente passa a vida toda tentando evitar: frustração, impotência, mágoa, tristeza, ressentimento, raiva, angústia, vergonha, desprezo, nojo. E todos eles juntos, fazem uma combinação catastrófica. E se eu tivesse que desenhar, seria quase como se tivesse um bolota de alguma coisa amarga e ruim entalada na boca do estômago.
Voltando aos pensamentos intrusivos, eu sei que esses pensamentos não são meus. Eu amo minha vida, amo o momento que estou vivendo e tenho muita gratidão para com toda essa experiência. Quando os pensamentos intrusivos acontecem, eles se acumulam com outros barulhos dentro da minha cabeça, eles gritam, falam mais alto do que minha vontade de me manter calma. Como uma criança que faz birra, implorando pra que eu dê atenção. Mas essas vozes não me dizem nada que faça eu me sentir bem. Elas tentam a todo custo me arrastar para dentro de uma fumaça densa preta, drenando minha energia e meus pensamentos felizes. Acho que por isso J.K. Rowling representou essa sensação com os dementadores.
Tem dias que eu consigo vencê-los. Sem remédios. Mas exige uma força de vontade e energia que nada nessa vida nunca me preparou para gerar. Então me deixa exausta. O acumulo dos problemas e encontrar formas de lidar com eles é um desafio que eu ainda vou aprender a superar. Eu vou aprender a lidar da melhor maneira, sem que isso esgote minha vontade de viver. Porque eu amo viver. Eu amo estar viva. E é isso que eu trago pra minha mente quando o turbilhão chega.
Eu preciso me lembrar de respirar direito. Eu preciso sentir a textura e a umidade da água na minha pele e ouvir o barulho dela correr, eu preciso sentir cheiro de mato, de fruta, de comida gostosa, eu preciso lembrar minha mente de que minha vida está no momento do presente, e não no problema do futuro, nem na mágoa do passado. Eu preciso ouvir meu coração bater pra me lembrar dessa máquina de vencer desafios que eu sou. Eu preciso lembrar eu mesma que eu nasci pra vencer. Que eu venci todos os desafios até o dia de hoje, e eu sou capaz de vencer os outros. Eu preciso lembrar todas essas coisas. E aí eu choro. Eu choro pra esvaziar o peito, pro choro correr que nem cachoeira e levar para fora de mim esses sentimentos que podem me afogar se eu teimar em ficar presa dentro deles.
E tem que partir de mim.
A cura. A vontade de seguir em frente. A vontade de não desistir. A vontade de lutar por mim. Tem que partir de mim. Porque eu sou tudo o que eu tenho. E seu Eu, não tem vida. E eu já disse: eu amo a vida.
Eu não quero tomar remédio. Eu quero enfrentar de frente com todo o meu potencial esses monstrinhos que são meus. Eu não quero estar entorpecida, ou adormecida, dependente de uma droga para me "emprestar" químicos que meu corpo sozinho tem a capacidade de produzir.
O corpo humano pode produzir oxitocina, endorfina, dopamina e serotonina. Então eu só preciso encontrar um jeito de fazer com que meu corpo faça isso. E consigo isso entendendo melhor meu corpo. Respeitando minha história, aceitando minhas limitações, acolhendo meus sentimentos, fazendo coisas que eu gosto, investindo meu tempo em criar algo que vai também beneficiar outras pessoas, me parabenizando por minhas conquistas, reconhecendo meus erros, e aprendendo com eles, dando para mim mesma tudo o que eu poderia esperar receber de outra pessoa, cuidando de mim, me alimentando com carinho, me tratando com compaixão. É assim que eu combato minha ansiedade dia a dia. É assim que todo dia eu encontro motivos para agradecer por estar viva, e por ter tido a chance de viver uma vida da qual eu me orgulho das escolhas que fiz, ao invés de sentir vergonha delas.
Eu molho minhas mãos e rosto na água e sinto escorrer, eu tomo um banho, passo perfume e respiro fundo o perfume, até a nuvem negra se dissipar. Nem que seja por 5 minutos. Se eu consigo ficar 5 minutos sem pensar em problemas, eu consigo ficar 10. Se eu consigo 10, eu consigo deitar minha cabeça a noite, acalmar meus pensamentos e dormir tranquila, e deixo meu corpo fazer o resto, porque, honestamente, o corpo sabe tudo o que faz.
Eu cansei de viver no modo sobrevivência, economia de bateria. E por isso me esforço pra não deixar minha ansiedade me vencer. Ela não pode me vencer. Ela não vai me vencer, porque eu estou no controle. - talvez isso seja mais verdadeiro em algum tempo no futuro, mas eu já acredito nessa verdade.
Então, só pra concluir, realmente, não é sempre que me sinto bem.
Mas todo dia eu escolho seguir feliz e lutar para melhorar.
Eu vou fazer tudo o que eu puder fazer para cuidar de mim, porque eu sou a pessoa mais importante da minha vida. E se eu não estiver aqui, eu não posso viver tudo o que essa existência pode vir a ser para mim. E eu sou curiosa. Eu quero estar aqui para descobrir e saber quais serão os presentes que o futuro reserva pra mim.
E para você também.
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