Adultescência
Curioso o pensamento que temos quando estamos no auge dos nossos 15 anos. Achamos que sabemos de tudo. Achamos que nossas dores são as mais importantes, e que nossos problemas não têm solução. Fazemos tempestades em gotas d’água, acreditamos que o mundo é um lugar cruel e injusto, queremos sempre ser os donos da razão. Achamos que o tempo passa demasiado devagar, e ansiamos pela maioridade. Ansiamos por sermos adultos. Donos de nós mesmos. Assim não precisaremos mais dar satisfação da nossa vida, nem pedir autorização dos responsáveis por nós, e que trabalharemos o suficiente para comprar e ter tudo aquilo que queremos.
Aquilo que falhamos em ver, é que
o tempo corre, como se tivesse doze pernas. Após os 15, o tempo cria asas, e
daqui a pouco, você está sentado numa lanchonete, com 20 e tantos, quase
trinta, com meia dúzia de amigos com quem ainda mantém contato, se perguntando
o que foi que aconteceu com o tempo, e como foi que ele passou tão rápido.
Neste ponto, nos seus sonhos de
quinze e poucos anos, você pensava que já estaria estabelecido, estabilizado,
com o emprego dos sonhos, uma casinha pra você, um carro, cachorros – ou gatos,
ou papagaios, ou hamsters, vai da sua preferencia -,talvez não com filhos, mas
ao menos noivo ou casado, viajando horrores pelo mundo, passando suas férias de
verão no Caribe e suas férias de inverno em algum país onde pudesse ver a neve.
Então a realidade chega com os
dois pés no seu peito: “calma aí! Você nasceu com privilégios? Se não, tenha um
pouco mais de paciência, pois sua escada rumo aos seus objetivos tem mais
degraus, e você vai ter que suar um pouco mais, e talvez não consiga tudo isso
antes de entrar na terceira década da sua vida aqui.”
A vida hollywoodiana que nos é
vendida desde pequenos vai cada vez mais se aproximando, nos fazendo perceber
que essa realidade nada mais é do que uma miragem, uma ilusão. Nem sempre a
oportunidade aparece. Nem sempre você consegue criar a oportunidade, e nem
sempre você consegue alcançar a realidade perfeita que você quer. E tá tudo bem
com isso.
Não adianta perder noites e
noites de sono, queimar neurônios tentando resolver problemas que, no momento,
podem não ter outra solução a não ser esperar.
Nós nos tornamos imediatistas.
Queremos que as coisas aconteçam para ontem, e não temos a paciência de esperar
que as sementes que plantamos venham a florescer. Nossa ansiedade envenena o
solo. Perdemos os sonhos, e acabamos à deriva no mar que nós somos. Como
astronautas explorando o universo, e de repente nos vemos soltos dos nossos cabos
que nos prendem à estação espacial. Perdidos. Sem ter como voltar para um porto
seguro.
Nossa vontade de querer que as
coisas sejam feitas à nossa maneira faz com que a apatia domine nosso ser e
pensamentos, deixando cada vez menos espaço para exercitar a empatia, e
entender as limitações de outrem. Esse imediatismo corta ainda antes de
florescer grandes projetos que poderiam ter sido bons, mas como achamos que já
estamos velhos pra dar certo na vida, deixamos os projetos de lado, com um
pensamento simplista “eu dei meu melhor. Fiz tudo que pude.” Fechamos as caixas
e jogamos fora ideias geniais, pelo medo de acreditar que elas poderiam dar
certo.
Quando os vinte e poucos vão se
tornando vinte e muitos, ficamos mais críticos com nossas decisões, deixamos de
dar o descanso que merecemos por termos chegado tão longe. E para cada novo
sonho, ou projeto que criamos, nossa mente encontra um jeito de sabotar, criando
problemas. Mas é essa a função dela, não é? E a nossa, deveria ser encontrar
soluções. E não desanimar... ou jogar tudo fora.
Com vinte e muitos ou trinta e
poucos a nostalgia passa a ser uma amiga cada vez mais frequente, na ânsia que
temos de tentar resgatar um pouco da juventude que nos vai deixando aos poucos.
Procuramos músicas antigas, jogos de videogame, filmes que nos levam de volta
na memória de tempos mais simples e com menos responsabilidades. Com mais tempo
pra diversão e menos tempos de obrigação. As vezes até dá vontade de andar
descalço na grama – e se você for corajoso suficiente, você até pode fazer isso
sem medo, sem ter que esperar ter uma família e filhos com quem você possa
fazer isso sem parecer idiota.
Com vinte e muitos ou trinta e
poucos você começa a observar coisas que antes passavam despercebidas. Sente a
necessidade de estar num lugar onde se sinta em casa. Onde possa descansar sua
mente e seu corpo, e não é no aluguel de um quarto numa casa dividida com oito
desconhecidos que você vai conseguir, coisas que talvez com vinte e poucos você
não se incomodasse. Você começa a sentir a necessidade de ter um espaço só para
você. Passa a aproveitar melhor a própria companhia. Passa a aprender a dizer
não. Passa a sofrer mais por dinheiro do que por amor, porque entende que o
amor não faz sofrer, mas a imaturidade sim, e ficar sem teto também.
Se, com trinta e poucos, você
ainda conseguir se manter positivo, e conseguir acreditar que não é tarde
demais pra tentar, e começar de novo, e terminar projetos que ficaram pela
metade, eu sei que você vai chegar lá e eu também.
Quando eu tiver trinta e poucos
vou voltar aqui e ler tudo isso, para que eu possa me lembrar de ser paciente,
se até lá eu não tiver alcançado meus objetivos – pode ser que até lá eles
tenham mudado. E lembrar que ainda há tempo, mas que isso não quer dizer que eu
não possa fazer nada. Lembrar que eu não posso desistir de tentar, nem de
acreditar. E lembrar de ser imensamente agradecida por minha jornada até ali.
Quando eu tiver trinta e poucos,
espero poder curtir com minha família, e rir das minhas experiencias e aprender
com elas, as boas e as ruins. Não quero esperar minha vida passar, e me
arrepender de não ter tido tempo suficiente para amar as pessoas que são
preciosas pra mim. Não quero perder o jeito da menina que olha o céu estrelado
com a esperança de um futuro melhor. Não quero ficar surda com o barulho do
mundo a ponto de não ouvir mais a brisa entre os galhos de árvore. Não quero
ficar cega com os problemas da vida a ponto de não enxergar todas as coisas
pelas quais sempre sou grata por ter.
Por enquanto, não posso fazer
muito. Mas faço tudo o que posso, da melhor maneira que consigo. E para mim,
isso é o suficiente. Não busco a validação de ninguém a não ser a minha mesma.
Está na hora de começar a olhar para mim com amor, paciência e compaixão.
Um dia, serei ao menos um pouco
sábia. E espero poder ensinar com carinho aos que vierem depois de mim.

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