Quarenta ( 4O )

Não me ando sentindo confortável pra falar de mim, tenho preferido calar as minhas vozes.
É engraçado porque aqui dentro tá tudo confuso e bagunçado, e essa inquietação não some nem me deixa em paz. Aliás, até mesmo dormir tem sido complicado. Um sono carregado de sonhos pesados, ora pesadelos que me sufocam, como se eu estivesse num mergulho em alto ar. diferente do voo, meus pés não alcançam o chão e vem a sensação aterradora de que estou só. As vezes é difícil até respirar.

Mas quando sua presença embala meu sono eu durmo em paz; e acordo em paz também.
Os pensamentos que mais percorrem minha mente giram em torno dessa incerteza que se instalou desde que deixei que você fizesse morada em mim.
Um medo de um sentimento não correspondido, acompanhados pelo conforto de um abraço seguro e das batidas  do seu coração, que aliás é um sonífero muito mais eficiente do que qualquer calmante.

Eu consigo me lembrar claramente do segundo que me destravei e abri minhas portas pra você. Talvez fosse porque estávamos quebrados, procurando conforto e afago pra tentar juntar alguns cacos que ficaram em nós daquilo que havia no antes. Os cacos que eram resquícios de algo que por nós nunca teria acabado. 
Se eu tivesse fugido, talvez eu não estivesse nessa encrenca.
Aliás, eu deveria ter mesmo me trancado no banheiro, até você ter ido embora.
Mas voltei.
E gostei.
E correspondi.
E olha só no que deu.

Agora estou aqui novamente, escrevendo coisas bregas, sendo piegas, ficando cheia de borboletas na barriga quando vejo você.
Aliás, é bizarro, porque não consigo me controlar, e estou velha demais pra viver novos romances, e a ideia era só tirar uma casquinha. Mas não sei ser 40. Quando eu vi, já estava envolta nessa problemão que você é, com seu cheiro e seu toque impregnados em mim.
Não consigo sair dessa situação, e na maior parte das noites, eu penso que deveria.
Não sei ficar de joguinhos, e decididamente não gosto da insegurança - que, por sinal, virou minha companheira constante.

Mas aquela montanha russa, ela aparece quando você chega.
Eu percebo em mim.
Meu coração acelera, a respiração fica mais intensa e falha. E aquele terrível frio na barriga do momento da queda...
Fico ansiosa pelo roçar da sua barba no meu pescoço e nuca; fico desejosa por suas mãos ao meu redor.
Fico ansiosa por esquecer meu nome. E as vezes eu até esqueço mesmo.

Achei que eu nunca mais fosse sentir isso novamente.
E é tão próximo daquilo que eu queria. Sou dona de mim, mas quero estar entregue, à sua mercê.
Você me oferece uma liberdade tentadora. E não é porque eu seja livre - que é o que sou, na verdade - que eu queira ser... Mas ainda assim, é bom saber que posso voar, e ainda ter um galho seguro onde eu possa pousar para passar a noite, ou me aquecer do frio.

A verdade é que eu me apaixonei. Sendo avisada que eu não deveria.
A verdade é que eu te quero pra mim. Curar suas dores e feridas no meu colo, com meu afago e meu carinho.
A verdade é que eu quero te afogar nesse sentimento todo que transborda pra fora de mim.
Essa saudade que sinto quando estou longe, me mata, e sim, eu conto os segundos pra te ver de novo.
Eu quero memorizar cada traço seu. Quero gravar cada linha sua, cada forma sua, cada sorriso seu.
E, principalmente, quero acordar todos os dias, e a primeira coisa que quero ver, não é meu teto, mas seus olhos. 

tudo bem, tudo bem..
mas uma garota pode sonhar, não é mesmo?



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