"NADA NOS DEIXA TÃO SOLITÁRIOS QUANTO OS NOSSOS SEGREDOS" - Paul Tournier

quarta-feira, 23 de julho de 2014

Numa realidade paralela

"Nessas horas eu daria tudo pra ter um carro" - Pensava ela, que a mais ou menos uma hora esperava por seu ônibus - que mais uma vez essa semana, não havia passado.
Ela estava aflita, cansada. Carecendo de um banho, atordoada pelo dia exaustivo no trabalho. Seus alunos possuíam energia para abastecer um município, e pobre professora, que tinha de arrumar um meio de ter tanta energia quanto eles. Estava esgotada.
Tentava se distrair ouvindo suas musicas velhas no celular "velhas mesmo. preciso arrumar tempo de atualizar minhas musicas" pensava; quando chegou finalmente o 7815, com 45 minutos de atraso, e não fosse isso, ainda estava lotado. Pessoas se amassavam e se espremiam por todo lado. Um empurra-empurra infernal, isso, pra não falar do cheiro insuportável do odor humano. E pra melhorar um pouco mais: todas as janelas fechadas.
"ah não, isso é demais pra mim".
"Com licença, senhora.." Já foi abrindo a janela. A tiazinha não gostou muito, nem alguns outros passageiros, mas ninguém disse nada.
Sua sorte eram os breve 15 minutos que passaria ali dentro até a sua descida. Foi em pé mesmo.
Mal havia percebido, já estava próximo ao seu ponto. Puxou a corda, espremeu-se entre um e outro e finalmente, depois de uma batalha infinita de corpos tentando ocupar o mesmo espaço, vitoriosa, desceu do ônibus. Todos os dias, a mesma batalha.
A felicidade, era saber que em mais cinco minutos estaria em casa.
Feliz e saltitante adiantou-se o mais rápido que pôde.
"só mais 15 metros" contava mentalmente, enquanto subia a rua.
Então ouviu um chamado: "psiu, tá sozinha gata? nesse frio?? acho que alguém devia te esquentar".
Ela quis paralisar de medo, mas apressou ainda mais o passo, quando percebeu que os passos vindos da voz se aproximavam mais dela.
"Não foge não gatinha, tá assustada??"dizia ele.
"5 metros e estarei salva..." O pânico tomava conta, ela agora respirava com dificuldade.. Tentou se lembrar de algo que pudesse ajuda-la. Puxou para frente sua bolsa, e lembrou-se do canivete. Lembrou-se de mante-se calma, e lembrou-se das aulas de muay-thai.
Em um curto espaço de tempo, antes que pudesse pensar, já estava parada em frente ao seu portão, as chaves em mão.
Suas mãos tremiam, e quando tentava destrancar o portão para se ver livre de qualquer perigo, a chave emperrou. Não tinha jeito, era o fim.
Ouviu os passos e o riso diabólico se aproximar. Todo seu sangue congelou, suas pernas tomaram consistência de gelatina, e quando esperava pelo ataque, fechou os olhos, e.. nada!
Ele havia sumido.
"AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAH!" Ela gritou.
Ao olhar para seu lado, viu um anjo. Não um anjo, mas um homem, parado ao seu lado, o rosto coberto por um capuz. A arma apontada para a direção onde antes houvera um possível agressor. Um anjo, acabara de salvar sua dignidade. Sua vida.
"você não deveria andar sozinha, tão tarde na rua.." Disse ele, uma voz que soou familiar.
"Culpa dos ônibus dessa cidade, não se pode confiar" respondeu dando um sorriso afetado.
"Ainda bem que eu estava aqui, não acha?" Ele dizia guardando a arma dentro da jaqueta.
"Não sei.. Talvez você seja tão ruim quanto aquele rapaz.. Ele não estava armado. Já você..." Ela disse, a língua afiada como sempre. Já havia se esquecido que o belo encapuzado estava armado.
"É verdade...Talvez eu seja." ele disse, de maneira vaga, olhando para o vazio, seu rosto pareceu se entristecer. "Mas não hoje.." olhou para ela, e sorriu.
"Você quer ajuda com essa chave?" perguntou.
"Não, obrigada.." respondeu ela.
Ele não respondeu, só se encostou no muro, e cruzou os braços. Ela lutava bravamente contra a chave que não virava de jeito nenhum, e já estava ficando incomodada com a presença do rapaz. Parou bruscamente e virou-se pra ele: "Moço obrigada, já agradeci, pode ir embora agora.."
Ele parecendo perplexo, olhou-a "Estou tentando ir embora, mas você está bloqueando minha passagem para casa".
Ela, ficando vermelha escarlate, dignou-se pela primeira vez depois da descarga de adrenalina a olhá-lo.
Ele puxou-a pelo braço, envolvendo-a num beijo apaixonado, ela, coitada, nem reagiu, por essa não esperava. Escapar de um agressor pra cair nas mãos de outro. Já estava pensando no canivete, quando ele segurou sua mão às costas.
Esperando pelo ataque de fúria, soltou-a.
Então ela o viu. E a lágrima desceu.
Não o vira desde que ele havia sido convocado à servir. Não o vira há anos.
5 para ser exata.
Ele havia ido, e não mandara nenhuma notícia. Nunca.
Disse que voltaria pra ela, que manteria contato. Mas pouco depois da ida, ela havia recebido uma notificação. Não era possível.
"morto em combate" dizia o papel.
No entanto ali estava ele.

"Te conto tudo depois. Mas eu voltei. Estou aqui pra você." disse ele, Apontando as mãos para si, baixando os ombros e os olhos. "Eu só estou aqui, por você".
Era emoção demais. Ela pulou em seu colo, cruzou as pernas ao redor das costas dele, beijou-o ardentemente. O  mordia, apertava, sufocava.
Ele sem entender, apenas perguntou : "não vai querer nenhuma explicação?"
Ainda sob a quentura dos lábios, ela respondeu num sussurro "pro inferno com as explicações. Me leve pra dentro agora. São cinco anos de atraso! você está vivo, e mais nada importa". O cansaço e a exaustão haviam passado. Seu corpo agora, estava tão elétrico quanto a energia de todos os seus alunos juntos. Ela o beijava enquanto ainda estava pendurada e suas pernas ao redor dele.

Abrindo o portão, entraram.
E o que houve lá dentro, não se sabe. E se eu soubesse, não contaria.


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