"NADA NOS DEIXA TÃO SOLITÁRIOS QUANTO OS NOSSOS SEGREDOS" - Paul Tournier

terça-feira, 18 de março de 2014

A caixa de pandora aberta




Uma simples afirmação, desencadeou uma torrente há algum tempo agora guardada a sete chaves.
Uma simples afirmação destruindo o muro, e escancarando a vergonha, desilusão, mágoa, a humilhação, e as dezenas de arrependimentos que se acumulam através do tempo.

E na verdade, a afirmação nem foi minha a princípio. Mas mais uma vez, ele mostrou-se disposto a me ouvir. E nem mesmo eu lembrava que haviam tantas frustrações escondidas embaixo do tapete.
É que na verdade, eu to ficando velha. É isso. E perdi tanto tempo fazendo todas as escolhas possivelmente erradas, que já não dá nem pra lembrar o momento exato em que tudo começou a bugar.
A afirmação foi simples "o que é que há por dentro da cidadela do meu coração?" Há tanto tempo que eu não entrava lá, na fortaleza que eu já realmente não lembrava mais, como era horrível ter que re-sentir tudo aquilo que uma vez me incomodou e me deixou lá no chão por mais de uma vez.

Ter que lembrar da frustração de ter crescido só, e de não ter tido um único amigo em quem eu realmente pudesse confiar, e quando tive, elas se mudaram, de endereço, de escola, ou que seja, de personalidade. 
Na verdade, apenas quatro permaneceram. Ter que me lembrar da frustração de ter sido sempre a namorada traída, um histórico de traição, uma após a outra que se propaga e ecoa através do tempo da minha história, sendo elas com namorados ou mesmo com amigas.
A desilusão, e mágoa, a revolta de ter perdido dois longos anos da minha vida, e pior, não conseguir nem mesmo lembrar porque é que foi que parei no tempo. Porque me deixei perder o tempo, e entregar minha vida nas mãos de alguém que nunca teve a intenção de cuidar de mim. E hoje, só hoje reconhecer a vergonha que sinto de mim por ter sido tão fraca a ponto de entregar meu coração nas mãos do primeiro otário que aparecesse me oferecendo o mundo. Mas maior que essa vergonha é saber a quantidade de coisas que perdi por me deixar perder em mim. Por perder o controle sobre mim em favor de outra pessoa, eu perdi pessoas que estimava. Perdi amigas, e momentos futuros que teriam sido feliz, se eu tivesse sido somente um pouquinho mais forte. Elas ainda estariam comigo, e de todas as coisas dentro dessa caixa abominável presa e trancafiada no meu coração, essa é a que mais me arrependo. Me arrependo todos os dias, por ter trocado amizades que poderiam ter sido duradouras, por um ser egoísta e que não valia nem o chão que eu pisava.
 E mais, ao abrir a caixa, foi aí que e dei conta, que de tantas coisas lá dentro, ninguém ninguém me conhecia, ninguém a não ser ele. E justamente por isso, eu perdi minha identidade, e nunca mais voltei pra dentro de mim. Eu nunca mais fui uma pessoa profunda. Há dois anos eu sou um ser superficial. Uma casca, eu só vivo em volta da cidadela e nunca mais entrei na torre trancada pra abrir a caixa. Há dois anos, os textos e as palavras não me encontram mais, nem há inspiração dentro de mim. Há dois anos não desenho, e há dois anos não sinto. Eu sou um ser momentâneo. Eu sinto, mas é só agora, daqui dez minutos já passou.
Não me aprofundo em nenhum pensamento e não crio planos pro futuro. Não acredito nos meus sentimentos porque não acredito mais nem em mim. 

E abrir a caixa, é doloroso e vergonhoso, por isso nunca o faço. Mas hoje ele me pediu. Ele me ouviu. Ele me fez novamente entrar e ver o baú cheio de pó e teias de aranha, cheias de coisas ruins empilhadas. Chorei até não conseguir mais abrir os olhos de tão inchados, mas logo após veio aquele alivio. E ter tirado o peso de dez mil pianos sobre minhas costas. O alivio do desabafo, e ter alguém disposto a ouvir. Porque a maioria das pessoas pergunta, mas nem todos querem realmente saber. 
Ok, ele não estava lá. Ele não estava no meu passado. Mas está no presente.  E estar no meu presente hoje, está me ajudando a lidar com esse passado doloroso. E felizmente mais uma vez, apesar da ferida que foi reaberta, ele fez o favor de passar um certo merthiolate. Doeu. Mas logo passa. Dessa vez não me sinto mais sozinha...

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