"NADA NOS DEIXA TÃO SOLITÁRIOS QUANTO OS NOSSOS SEGREDOS" - Paul Tournier

terça-feira, 19 de março de 2013

I see you, but I can't feel you anymore

   Era noite, e eu andava pela rua, sem olhar para os lados, e pensava incessantemente "tomara que eu não o veja, tomara que eu não o veja", mas algo dentro de mim implorava pra que eu pudesse vê-lo outra vez.
   Com as mãos enfiadas no bolso do casaco de frio roxo, saia de pregas e sapatilhas eu andava em meio as poças na calçada, na cabeça baixa o capuz, e por incrível que pareça, não estava com os fones no ouvido.

   Não sei ao certo quanto tempo andei, mas algo, como se fosse uma voz, me disse pra olhar pro lado.
  Automaticamente eu o fiz, então lá estava ele. Do outro lado da rua, e haviam dois colegas ao seu lado. Não reconheci nenhum deles, mas ele eu reconheci instantaneamente. Estatura mediana alta, camisa preta, calça de sarja preta, o tenis preto, e a mochila nas costas. O cabelo bagunçado "provavelmente deve estar cheirando a Clear¹ ". Era o mesmo garoto, porém não mais um garoto.
   Parecia ter passado uma eternidade desde que percebi que ele estava do outro lado da rua. Tentei em vão me controlar, acelerei meus passos então entrei à primeira esquina a direita, e só pude esperar que ele não me visse. 
   Não estava nem um pouco preparada pra encará-lo outra vez. Já havia passado tanto tempo, e não nos despedimos um do outro. Após descobrir segredos enterrados  sob diversas camadas de mentiras, eu não havia encontrado um jeito de encará-lo. Não ainda.

   Me escondi numa banca de jornais imensa, entre livros e histórias fantásticas. Um lugar que me fazia bem, e esperei. Esperei que ele fosse embora. Achei que havia passado tempo suficiente, então talvez ele já tivesse ido, respirei fundo e me virei pra ir embora.
  E lá estava ele. Do meu lado, fingindo estar distraído, fingindo não me ver, quando eu sabia que ele só virara para aquele lado, e parara ali, justamente por minha causa.

  Só consegui prender o ar, com tamanho susto que levei, mas não disse nada.Virei para o outro lado, abaixei a cabeça, respirando de forma irregular, estava me preparando para ir embora, travando uma terrível batalha interna. A esse ponto, corria uma quantidade absurda de adrenalina pelo meu corpo "Falo com ele? Soco a cara dele, afinal, ele merece... Ignoro e continuo meu caminho? Deus o que eu faço?" Me vi fazendo uma prece silenciosa, esperando que minha resposta caísse do céu.
   Sempre fizemos esse jogo, ele finge que não quer falar comigo, porque toda vez é covarde e espera que eu vá atras, eu sempre fui a corajosa, e ao vê-lo caminhar para o sentido oposto ao meu, foi num impulso que  me vi dizendo: - Espere!-  eu pedi. Não disse gritando. Disse quase num sussurro. E pude sentir, mesmo que não pudesse ver, que ele havia soltado um sorriso, declarando-se vencedor outra vez desse desafio.

   - Eu sabia que você ia me chamar... - Ele disse, gabando-se do fato que toda vez perco, e eu o chamo. A iniciativa é sempre minha, não pergunte o porque.
   - Isso não tem graça, você sabe... - Eu não estava mais conseguindo pensar coerentemente. 
  Tanto tempo havia passado, e desde então muita coisa havia mudado em mim. Minha percepção de mundo, de sentimentos, de tudo, e naquele pequeno momento, parecia que o tempo não tinha passado coisa nenhuma. Parecia que eu era a mesma menina por trás da banca de açaí lendo furiosamente os belos poemas que havia recebido como depoimentos pelo orkut. Eu sorri sem perceber.
  - Então? Quer conversar? Faz um tempo que a gente não se fala, né? - Ele interrompeu meus pensamentos. 
    Não senti nenhum tom de sarcasmo em sua voz, ele me parecia um pouco aflito, parecia querer conversar comigo, e eu me vi na mesma situação querendo desesperadamente voltar a fazer parte da vida dele. "Como assim?? Ora bolas! Não depois de tudo o que passei, a humilhação a dor e o sofrimento... Não, voltar a fazer parte da vida dele é algo que definitivamente não quero pra mim. Quero mais que morra! que sofra! Que se foda!" Gritava meu consciente ciente de tudo que havia se passado entre nós.
    - Não sei se quero conversar com você. É estranho te ver depois de tudo.. você deve
imaginar o porquê, não? - Deixei todos os sentidos por trás da minha pergunta pra que ele entendesse.
    - Sim, eu imagino. Tá tudo bem com você? - Ele perguntou. Me parecia genuinamente interessado.
   - Poderia estar melhor... E você? - Eu, não sei se estava interessada, ou se fora somente uma resposta mecânica.
   - Eu estou muito bem! Melhor agora por te ver! - Um sorriso tímido se formou em seus lábios "lábios rosados, e macios, escorregando sobre os meus, deixando-me roçar a língua neles e traçando o desenho desse contorno perfeito". Corei quando me dei conta do rumo dos meus pensamentos, e baixei a cabeça, esperando que ele não percebesse. Eu ainda era tão fácil de ler. 
   - Volta comigo? - Despejou sem rodeios. Senti como se eu tivesse levado um murro no estômago, meu queixo caiu.
   - E sua namorada? - Só consegui pensar nisso. Que pergunta mais idiota de se fazer. Eu poderia jogar todas as acusações do mundo tipo "Pra que voltar? Pra continuar com a criação de chifres na minha cabeça?" ou "Porque? Já não riu de mim e me humilhou publicamente por tempo suficiente?" ou simplesmente "Não. Não quero, obrigada. Eu passo"... De tantas coisas que eu podia ter pensado, fui falar justo dela.
   - Não namoro mais. - Foi sua resposta. E percebi seu rosto ficando sombrio. Da mesma forma que ficava, das vezes que eu tirava sarro da sua ex-namorada ruiva.''Bem feito! tomara que ela tenha te metido muitas galhas'' pensei.
   - Comeu? - Soltei uma gostosa risada sarcástica.
   - Não é da sua conta. - Respondeu.
   - Ah... - Consegui suprimir um sorriso com essa resposta. - E então, você quer voltar comigo? - carreguei no sarcasmo - Não acho que seja sua escolha mais inteligente. E eu não quero você outra vez. - Consegui dizer em um folego só, pra que eu não perdesse a coragem.
   - Eu estou fadado a não fazer escolhas inteligentes, docinho. Eu realmente sinto sua falta.

   Eu não disse nada. Como poderia? Não depois de tudo! "nunca mais seremos a mesma coisa. nunca mais nos olharemos da mesma forma. A descoberta, a inocência... nunca mais".
   Comecei a caminhar, e senti dor física no peito. Eu quis tanto ouvi-lo dizer aquela pequena frase outra vez.
  Desejei tanto! Mas, quando esperei, ele não estava pedindo pra mim, e sim estava lá levando ela no cinema. Como eu poderia passar por cima dessa barreira, dessa parede que construi, e me tornar uma ponte pra ele? Não depois de tudo, e certamente não outra vez.
  Ainda estava em silêncio, e pude sentir os passos dele perto dos meus. Caminhava em direção à praia, olhando apenas para os meus pés..
  Me sentei num banco de concreto na orla da praia, e fiquei observando o mar. As imagens e lembranças passavam como borrão pela minha mente, as boas e as ruins. Mas principalmente as ruins.
  - Você tem noção de todas as coisas que eu abri mão por sua causa? E quando eu precisei de você, você simplesmente não estava mais lá. Tem noção de quanto essas coisas foram dolorosas e humilhantes? Achar que você era meu, quando na verdade, nunca foi? Tem noção de quantas coisas eu queria fazer agora, inclusive arrebentar você? Tem noção de quantas vezes me perguntei o que eu tinha feito de errado? - Eu estava gritando, e a dor jorrava através das minhas lágrimas. Tantas acusações apenas uma condenação. CULPADO. "Bastardo inútil e filho da puta egoísta que é. Quis que você morresse com um cano de ferro te atravessando pelo cú"
   Ele não disse nada, ficou apenas olhando o vazio por um tempo. O único som que se ouvia era o do mar, e a única luz era distante ao final da rua.
   Eu ainda chorava descontroladamente de ódio e pura ira "talvez agora eu pudesse usar aquele canivete e atravessar a garganta dele, ninguém saberia que fui eu"...
   - Lembra da história da folha branca com um pingo preto no meio?- Ele interrompeu o silêncio e meus pensamentos homicidas -  Onde as pessoas reparavam apenas no pingo negro no meio da folha, mas esqueceram que havia toda uma pagina em branco ao redor para ser escrita?- assenti com a cabeça, indicando que lembrava bem da história. Como também me lembrava de como me arrependi por deixá-lo voltar pra minha vida naquela época.
   - Deixa o ponto negro de lado e olha agora pra folha em branco... Por favor.- Prosseguiu, concluindo o que havia a dizer. Sua voz era suave e aveludada, exatamente como eu me lembrava. sussurrando na minha frente. Sim, ele estava com as mãos apoiadas no banco e olhava diretamente nos meus olhos.  "que saudade desses olhos brilhosos de avelã"...

  Me vi tentada outra vez, a esquecer toda aquela porcaria de bagagem que carregamos juntos durante todos esses anos, desde que nos conhecemos. Me vi tentada a apagar toda a dor da humilhação e do abandono, e naquele momento, eu só consegui enxergar o brilho dos olhos sonhadores que uma vez mais olhava pra mim como se eu fosse o que havia de mais precioso em sua vida. Que me olhava com ternura, e com amor incondicional. 
   Uma vez mais vi aquele olhar pra mim. 
  Vi a falha na sobrancelha, vi o corar da pele, senti seu hálito e respiração, vi de perto a maciez dos seus lábios molhados e sedutores me convidando a dar um beijo, senti a textura do cabelo liso sob os meus dedos, e o cheiro... Ah, aquele cheiro inconfundível, o cheiro do outro mundo, que me fazia esquecer todas as minhas quimeras e receios.
   Então, eu senti seu beijo. E seu toque. E seu suor. E seu amor.
   E aí, eu acordei.



Um comentário:

Anônimo disse...

"você não sabe, ninguém sabe. mas eu sempre penso em você."