"NADA NOS DEIXA TÃO SOLITÁRIOS QUANTO OS NOSSOS SEGREDOS" - Paul Tournier

quinta-feira, 24 de maio de 2012

It was just a dream

Eu disse antes de ir dormir, que se ele não me acordasse no dia seguinte antes de ele ir trabalhar para se despedir de mim não voltaria lá nunca mais. Claro que era uma brincadeira, ele não tinha obrigação nenhuma de se despedir, ou qualquer coisa do tipo.
Já havia sido gentil de mais comigo, me cedido seu tempo e seu espaço.. Imagina se ele deveria se incomodar em se despedir... Mas ainda assim fiz o pedido, na brincadeira (aquelas que a gente faz na inocência, mas que é a verdade mascarada, sabe?)

Antes de ir dormir, deixei um bilhete agradecendo pela estadia por lá, da mesma forma que fiz da outra vez.
Deitei, e em pouco tempo adormeci.
Estava sonhando, e era bom sonhar. Depois de duas semanas encarando problemas e fracassos, e trabalho e estudo, estive tão sobrecarregada que não sonhava mais. Mas aquela noite foi tranquila, e sonhei. Dormi bem...

Mas em algum momento, nem eu entendi direito, aquele sonho foi se tornando real, e eu ouvia ao longe meu nome soar com uma voz bem conhecida..
"ei, acorde...Lilly, acorde..." Então senti um toque leve no braço, e outra vez a voz masculina chamou pelo meu nome.

Aos poucos fui tomando consciência de que não era sonho, e abri os olhos.
Ele estava sentado na cama, com a mão esquerda pousada sobre meu ombro, e um sorriso lindo estampado no rosto.
Eu devia estar um bagaço. Quando olhei para aquele sorriso lindo e aparelhado, esqueci até mesmo como respirava.
Claro que eu tinha uma queda por ele, e ele sabia. Até dizia ser recíproco. Mas ficou aquelas da zona de amizade, porque nem poderia rolar nada entre os dois.  Minha pele era clara, então logo senti o rubor conhecido tomar minhas bochechas.

"Bom dia, Isaac. falei que eu iria acordar.." soltei, junto com um sorriso tímido "que horas são?"
"São 05:45... e eu falei que acordaria cedo." respondeu.

As pessoas na casa ainda dormiam, e além do frio, também chovia. Sem dúvida, eles demorariam para acordar.
Eu tenho uma mania engraçada, e muita gente pode rir. A noite, antes de dormir, após escovar os dentes, eu durmo chupando bala. (Halls, para ser precisa). Naquela noite, fui dormir bem tarde com a bala, e por algum milagre, ao acordar minha bala ainda existia, apesar de estar bem pequena. O que ajudou muito para que eu pudesse conversar com ele, sem o "bafo" matinal.

Sentei ao lado dele na cama e voltamos a conversar... Falamos sobre os amigos, e comidas, e sobre passeios, e rimos bastante... mas baixinho, para que não acordasse a casa inteira.
"e minhas meias que não acho...?" ele perguntei, e eu ri.
"Bom, ontem sua mãe deixou todas as suas roupas separadas lá na cozinha. Porque não vê se suas meias estão lá?" rebati a pergunta.
"Aquelas estão furadas... Não vou trabalhar com meias furadas!", e abrindo a gaveta, começou a procurar um par de meias às cegas, sim, porque a luz do quarto estava apagada.
"Deixa de ser burro! fecha a porta e acende a luz, né?" Disse eu.
Ele rindo baixinho, acatou à minha ideia, e então começamos a procurar por um par de meias que fosse o certo, e estivesse em bom estado.

"Falando a verdade agora... Todas aquelas coisas que conversamos, eram brincadeiras, né?" disse em baixo tom de voz.
"O que..? Como assim".
"É tipo... eu e você.. e tals.." fui ficando vermelha outra vez.
Ele parou um pouco, e ficou olhando o nada, e isso foi me deixando nervosa. então comecei a rir. Muito minha cara fazer isso.
"Não, não falei brincando. Mas a história é outro, e é bem complicada, você sabe da minha situação, então.. por favor, esquece isso, tá?". Foi sua resposta. E me emudeceu. De repente comecei a sufocar, sabia que minhas lágrimas em pouco chegariam. É horrível ser rejeitada. Pelo menos pra mim, que não tenho hábito de tocar nesses assuntos. De tão constrangida, comecei a rir.
Ele riu também.
"Ok, não tocarei mais nesse assunto." eu disse.
E o silêncio desagradável reinou. Eu não conseguia dizer mais nada, e ele pelo visto, parecia tão constrangido quanto eu.
...

"São O6:45, preciso ir. Entro no trabalho às O7:30." ele disse, após dar uma olhada no relógio. Meneei com a cabeça, dizendo que entendia.
Ele abriu seus braços, me chamando pra um abraço, que aceitei de bom grado.
Seu perfume invadiu minhas narinas me deixando zonza. Era tão bom e aconchegante. E de repente senti sua mão alisando minhas costas, sobre a camisa de cetim que eu usava. Tentei me soltar do abraço, mas ele não afrouxava seu abraço de urso. então me conformei, e fiquei ali quietinha.
Quando me soltou, finalizou com um beijo demorado na minha bochecha. Que foi seguido por outro beijo, na outra bochecha. que foi seguido por um beijo demorado no canto da minha boca. Meu coração começou a bater com a velocidade de um veículo de fórmula um.
Então ele me encarou, e ficamos testa-a-testa um com o outro.
Não sei se foi o impulso, ou o que pode ter sido. me aproximei um pouco, ele me imitou. Nossas bocas ficaram a milímetros de distancia, e se tocaram.

Seus lábios eram macios, e escorregavam. O beijo era doce, e misturava meu halls com o gosto da pasta de dente na boca dele. Era lento, tal qual vemos em filmes românticos. Não havia pressa. Tínhamos pouco tempo, mas esse tinha que ser bem aproveitado.
Então acabou. Tal qual o ritmo do beijo, o mesmo foi acabando. Lentamente.
Os lábios se separaram, e os dois novamente com as testas coladas e cabeça baixa sentiram seus rostos ruborizando.

E subitamente ele levantou da cama, ficando de pé, ainda com a cabeça baixa.
Ele se levantou tão rápido, que tive pouquissimo tempo para assimilar o que acabara de acontecer.
fiquei de olhos fechados, ainda lembrando da sensação do beijo, e também do que ele acabar de me pedir (que não tocasse mais "naquele" assunto). Estavamos ambos em choque e envergonhados.
Me levantou, e deu outro abraço apertado no rapaz. "não precisa se envergonhar. Não vou contar a ninguem".  Sussurrei em seu ouvido, e ele riu ao ouvir as minhas palavras.
soltamos o abraço, e ele saiu porta afora, levando consigo as chaves da moto e o capacete, enfrentando a chuva no caminho para o trabalho, deixando-me ali, parada ao pé da porta, remoendo toda a situação.

Deitei outra vez, e encolhida e coberta na cama, fiquei refazendo mentalmente tudo o que acontecera...
Quando um barulho estrondoso do lado de fora me assustou, e percebi, que tudo fora apenas um sonho. E aquele era o barulho da moto dele partindo.
Nada daquilo acontecera, e ele não viera me acordar.
Então, soube, que não voltaria lá outra vez. Fui embora, e tentei não pensar mais naquilo.

Nenhum comentário:

Postar um comentário