"NADA NOS DEIXA TÃO SOLITÁRIOS QUANTO OS NOSSOS SEGREDOS" - Paul Tournier

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

Damn

Não houve dor.

A pequena linha escarlate apareceu no lugar onde antes fora passada uma lâmina afiada. O corte não fora profundo. Era apenas o suficiente para lembrar-se de que ainda sentia algo, nem que fosse um pouco de dor.
Mas nem mesmo essa se apresentou.
O corte ficou mais fundo, e ainda assim não era possível que ela sentisse algo. A lágrima descia pelo rosto, levando consigo cada lembrança boa que houvera um dia...

Existem aquelas dores que não conseguimos nem mesmo nomear. E a dor física provocada por aquela lâmina uma vez amenizou a dor interior. Mas agora, nem mesmo o corte a fazia esquecer...

Olhava em volta de seu quarto bagunçado, parecia diferente, e faltava algo. Muitas coisas que não deveriam estar ali, e o que deveria estar... não estava, já a muito tempo.
Houve um tempo, em que gostava de lembrar das coisas boas, chorava de saudade delas, aquelas lágrimas que desciam queimando, e fazia com que necessitasse de remédios para adormecer. Hoje não mais...
Ele mexera na última lembrança, aquela que não deveria ser apagada. Mexeu aonde não devia.
O sangue pulsava, e caia quente sobre o lençol. A lâmina pedia insistente por um pouco mais.
Ela cedeu.
Perfurou mais fundo sua pele, deixando que cada gota levasse embora sua dor. "hoje nosso amor foi esquecido, e lavado no meu sangue"...

A garota estava encolhida sobre sua cama, e tocava insistentemente em seu celular "Damn, Damn, Damn /What I'd do to have you/Here, here, here/I wish you were here/Damn, Damn, Damn/What I'd do to have you/Near, near, near/I wish you were here "... Sabia que ouvir aquilo não amenizaria sua dor, mas ainda assim, confortava-a saber que em algum outro lugar, alguém sentia a mesma coisa que ela estava sentindo ali, enquanto estava encolhida em forma de bolinha, deixando a pele sangrar, e os olhos tomarem aquela ardência familiar de quem passou um bom tempo chorando.

Passado um tempo considerando se sairia dali ou não, levantou-se da cama pegou o celular tocando e colocou-o no fone para ouvir, juntou suas forças, o que seria para ela um esforço bem grande, afinal, não comia há dias, bebericava apenas da sua garrafinha d'água ao lado da cama quando sentia sede. Enfim, saiu dali juntando consigo tudo o que possuía, e que trazia as lembranças que ela então lutaria com todas as forças para esquecer.
Trouxe as cartas, desenhos, fotos e tudo o mais que pudesse lembrar daquele período vivido, como um sonho e que teve de acordar e dar de cara com o chão, que sumiu de seus pés quando se viu sozinha.
Levou um tempo para que a vertigem passasse, e ela se acostumasse com a vista turva do dia.
Pegou um pequeno isqueiro que seu pai guardava no armário, e uma garrafa de álcool. Tropeçava nos passos, mas ainda assim, respirou fundo e seguiu para o terreno baldio nos fundos de sua casa...

Estava um dia claro, mas nublado. Não havia um único raio de sol sequer, e eram apenas uma da tarde, mas parecia que todo o dia já havia acabado. Seguiu em meio a lama sujando seu All Star.
O terreno era abandonado, apenas a cerca de arame farpado poderia dizer que alguém possuía ou se importava com aquele terreno. Sentiu uma simpatia por ele, porque de certa forma sentia-se assim também.
Ultrapassou a cerca de arame arranhando um pouco a pele, deixando mais algumas gotas de sangue pra trás "viu, estou mesmo dando o sangue por isso", bufou; e seguiu rumo ao baldão de de plástico na extremidade esquerda do terreno.
Era uma cena engraçada de se assistir : Uma garota de vestido listrado preto e branco, curto porém grande demais para seu tamanho (talvez ela tivesse emagrecido o suficiente para que suas roupas ficassem folgadas), usando All Star de cano alto andando num terreno baldio em meio a lama e os chuviscos chatos de chuva, pelo menos três sacola cheias de papéis penduradas no seu braço e mão esquerda, e na outra mão segurava o vidro de álcool e o isqueiro.

O baldão tinha um cheiro fétido, de lixo, misturado com água podre e mais aquelas coisas velhas que ficam muito tempo sem que alguém mexa.
Ela teve que prender um pouco a respiração quando chegou perto, fechou os olhos e considerou se haveria melhor forma de fazer isso. Decidiu que não, abriu os olhos e soltou a respiração. Colocou seus objetos no chão e virou o baldão para que pudesse tirar toda a água de lá.
Voltou o baldão à sua posição normal, e sem mais hesitar, despejou as sacolas e todo o seu conteúdo lá dentro.
Uma desenho caiu virado pra cima. Era ela, ele havia feito... Desenho antigo, mas aqueles olhos eram reconhecíveis em qualquer lugar...
Sentiu seus próprios olhos se enxerem d'água, e o coração voltou a sentir o aperto familiar da dor. Sim, estava finalmente se desfazendo de cada lembrança boa, e dessa vez era pra valer. E seria como se ele jamais tivesse entrado em sua vida.
Como se ele nunca tivesse aberto nenhum buraco em seu peito. Ela queimaria cada lembrança.

Abriu o vidro de álcool e despejou-o também sobre as folhas caídas no baldão. O cheiro forte de álcool invadiu suas narinas e ardeu. Os olhos lacrimejaram um pouco, então ela pegou o isqueiro e queimou a ponta da folha que estava na sua mão. A folha do desenho.
Observou o fogo consumi-la aos poucos, e com o coração cheio de dor, colocou a folha com o restante que estavam jazidas no baldão, banhadas em álcool.
Não demorou muito para que tudo já estivesse em chamas.
Ela ficou parada, observando tudo queimar. Igual ao seu peito. Igual às lágrimas...

[...] cont. . .

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