"NADA NOS DEIXA TÃO SOLITÁRIOS QUANTO OS NOSSOS SEGREDOS" - Paul Tournier

terça-feira, 13 de setembro de 2011

Damn pt 3

Seu maior desafio foi passar outra vez pela cerca de arame farpado em meio a lama...
Voltou para seu quarto onde estivera durante toda a manhã, arrumou suas coisas, jogando fora tudo o que pudesse lembrar dele. Saias, camisetas, blusas e qualquer outra coisa que tivesse roxo em seu guarda-roupa (aquela cor lhe causava enjoos agora), ou que a deixasse parecida com algo que era quando estiveram juntos.

Sentou-se em frente ao espelho, olhou os olhos fundos um instante, e puxou para si a tinta de cabelo que sua mãe já havia deixado preparada para aplicar.
Ainda chorava um pouco, o rosto inchado, os olhos estavam ardendo e as marcas na pele começavam a incomodar, mas logo retornou seu foco para o espelho outra vez.
Mudou a música de sua playlist (de: I don't love you -MCR / para: Over now - Submersed) e começou o processo de tingimento.

Viu seu cabelo castanho avermelhado desbotado tomar cor e ficar mais escuro, até atingir a tonalidade certa de preto aos poucos " isso tudo por causa de um garoto idiota" dizia consigo entre uma madeixa com tinta e outra.
Ao término dos 20 minutos infindáveis, rumou para o banheiro, para começar a etapa de "enxague".

Cansou de chorar daquela forma, pois estivera naquela situação outras vezes... Retirou o excesso da tinta, sentou no chão do banheiro e recomeçou a chorar silenciosamente sob a água que caia quente em sua cabeça.
A cada lágrima que caía, vinha uma lembrança em sua mente;
Primeiro, vinham coisas de antes dele: suas amigas, o dia do seu batismo na igreja que frequentava desde pequena, e como estava feliz antes desse um ano começar. Lembrou-se de como demorou pra se recuperar dos outros baques, e dizia que não sofreria daquela forma nunca mais.
Depois, vinham as lembranças dele; claras como cristal: O dia em que ficaram juntos no churrasco da família dela em meio à bagunça, piadas e trocas de confidências; a 1º vez que viram uma estrela cadente juntos, onde parecia que até mesmo Deus era cúmplice dessa história de amor inusitada; lembrou-se de como ele olhava pra ela como se a mesma fosse o seu bem mais precioso, as palhaçadas que compartilharam, as tombadas no meio da rua, o dia do batismo dele, as promessas de amor eterno... E depois começaram a surgir as imagens ruins que tanto sufocavam-na : As marcas de unha nas costas resultados do ciúmes excessivo, as brigas e todas as vezes que ele desligara o telefone em sua cara, e o inevitável fim, as novas imagens dele com outra, fazendo as mesmas coisas que fizeram um dia quando estavam juntos...
Ela riu sombriamente " E a história se repete.. 1, 2, 3 vezes... ", pensou em voz alta.
Terminou seu banho, saiu com coragem do banheiro encarando o choque térmico da sauna que o banheiro havia virado para o frio cortante do lado de fora que entrava pela janela à esquerda.
Vestiu-se e olhou no espelho outra vez.

Apesar da cara inchada, não se parecia nem um pouco com a garota que vira a apenas 30 minutos antes, olhando nos mesmos olhos.
Via uma garota magra, com uma cascata de cabelos pesados e pretos caindo no meio de suas costas, tudo proporcional; seus lábios eram como que desenhados, carnudos e com um tom leve de rosado, olhos castanhos intensos e profundos... A pele morena meio pálida, porém atraente e saudável aos seus olhos... Percebeu que estava olhando para si de verdade pela 1º vez em semanas, gostou do que viu, e sorriu.
Vestiu-se o melhor que pôde, alisou os cabelos, passou um pouco de delineador nos olhos e um pouco de blush para amenizar a palidez, pôs seu all star surrado, jogou a mochila sobre os ombros, pegou a sacola com os ursos de pelúcia, respirou fundo e saiu porta afora.

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