"NADA NOS DEIXA TÃO SOLITÁRIOS QUANTO OS NOSSOS SEGREDOS" - Paul Tournier

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

Damn pt 2

Enquanto via o fogo consumir todas as lembranças, seu coração balançava feito escola de samba. Talvez tivesse se arrependido de queimar todas as coisas, mas na verdade, sabia que era o certo a se fazer.

Uma conversa entre amigos ia e vinha em sua mente : "você ficou acomodada, e acostumada a estar sempre com alguém... Por acaso você sabe viver sozinha? Quer dizer, sem precisar depender de terceiros e achar que sua vida depende de alguém? Enquanto você não aprender a se virar, se amar, sem ninguém, então nunca vai ser suficiente quando você estiver com alguém"... Vai ver era por isso que estava péssima desse jeito.

Deu meia volta, e estava indo embora, quando uma lasca de papel queimado caiu aos seus pés.
Ela reconheceu a caligrafia, tinha apenas dois anos que havia recebido o poema... E pode ler no papel com as bordas torradas "ainda descubro o que o teu coração quer// e farei de você para sempre minha mulher".
As lágrimas sufocaram-na, com uma intensidade forte o suficiente para derrubar até mesmo o homem mais insensível da terra...
Tapou a boca com a mão, e respirou com dificuldade, faltou fôlego, e as lágrimas saltavam de seus olhos com a facilidade de uma cachoeira, baixou a cabeça e direcionou seu corpo para o chão a apanhar o pedaço de papel.
Pegou-o, leu-o e releu pelo menos três vezes a mais. Juntou o pedaço queimado junto ao colo, ergueu os olhos e disse em voz alta : '' Deus, talvez hoje você não goste mais tanto de mim quanto gostou um dia, mas se eu ainda puder te pedir qualquer coisa, peço que leve e tire de mim toda a mágoa e toda a dor. Eu só quero esquecer...".
Ainda agachada no chão, encolheu-se num abraço solitário... Logo uma brisa soprou, secando suas lágrimas e bagunçando seu cabelo, levantou-se do chão, respirou fundo, e sentiu de toda a sua alma que aquela brisa era Deus, respondendo que tudo ficaria bem.
Seu coração ficou um pouco mais leve, e assentiu com a cabeça deixando um sorriso amarelo esboçar em seu rosto. Ela acreditava que tudo ia dar certo.
Olhou mais uma vez para o papel e beijou-o enquanto deixava mais uma lágrima solitária correr por sua face, respirou fundo mais uma vez, e jogou o pedaço de papel de volta ao fogo. Viu a chama consumí-lo por completo, virou novamente, dando as costas para o fogaréu e seguiu rumo a sua casa, sem olhar pra trás.

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