"NADA NOS DEIXA TÃO SOLITÁRIOS QUANTO OS NOSSOS SEGREDOS" - Paul Tournier

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

Damn pt4

Quanto mais perto chegava da hora em que ela iria vê-lo, mais seu coração martelava e as lágrimas sufocavam-na. Parecia estar andando no corredor da morte, se preparando para sua própria decapitação.
Finalmente chegada a hora em que não poderia mais adiar, rumou para o embate. Parecia de fato estar indo para uma batalha, há muito já perdida, entre seu coração e sua razão, onde ambas saíram machucadas e ninguém venceu.

Olhou-o nos olhos, e sorriu o sorriso mais doce que pôde. Ele olhou-a com indiferença, zombeteiro, admitiu agir por despeito; despeito esse que feriu ainda mais seu coração já destruído pela dor do término. O olhar dele era frio, e estava se divertindo , sem conseguir esconder a arrogância, ao perceber que ela estava tentando seguir em frente, sem ele (teoricamente).

Mas, ela levou tudo na brincadeira, esticou a sacola com os ursinhos de pelúcia e entregou em suas mãos : "você estava certo ao me mandar aquela música, finalmente percebi que estou melhor sem você. E só vim devolver os ursos, porque já que você deu o primeiro passo de intruso para esquecer toda a história, estou apenas colocando um desfecho mais dramático."
Saíram de perto um do outro, e o peso que martelava em seu coração não estava mais lá incomodando-a.
Sentiu-se inundada pelo alívio, pela calma, e viu a dor finalmente desgarrar-se dela e ir embora de uma vez, assim como ela fizera com as coisas jogadas no fogo, a dor foi embora e não voltou a olhar pra trás.

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O dia fora longo e exaustivo, cheio de muitos baixos e altos, mas pela primeira vez em um mês, conseguiu pôr a cabeça no travesseiro e ficar tranquila, sem precisar dos remédios. Descansou, e teve paz em seu coração...
Acordou às 5:00 da manhã com o celular vibrando em baixo do travesseiro, com uma mensagem que dizia '' [...]Com o tempo você vai perceber que para ser feliz com uma outra pessoa, você precisa em primeiro lugar, não precisar dela(...)"

Sorriu sonolenta, esperando que dor chegasse, mas ela não veio. Então, fechou os olhos novamente com o sorriso ainda em seus lábios, e sussurrou um pequeno agradecimento : "Deus, agora vai dar tudo certo, não é?"
Adormeceu outra vez, a tempo apenas de a luz do telefone se apagar... Ouviu sons de asas batendo, e rumou para o belo dos sonhos que não tinha há semanas...

Uma coisa era certa. Sua vida tinha de continuar. Com ou sem ele.
...

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Obrigada por acompanhar até aqui.
Foi trabalhoso desenvolver, mas fiquei muito orgulhosa dessa nova "criação" xD
beijos :*

terça-feira, 13 de setembro de 2011

Damn pt 3

Seu maior desafio foi passar outra vez pela cerca de arame farpado em meio a lama...
Voltou para seu quarto onde estivera durante toda a manhã, arrumou suas coisas, jogando fora tudo o que pudesse lembrar dele. Saias, camisetas, blusas e qualquer outra coisa que tivesse roxo em seu guarda-roupa (aquela cor lhe causava enjoos agora), ou que a deixasse parecida com algo que era quando estiveram juntos.

Sentou-se em frente ao espelho, olhou os olhos fundos um instante, e puxou para si a tinta de cabelo que sua mãe já havia deixado preparada para aplicar.
Ainda chorava um pouco, o rosto inchado, os olhos estavam ardendo e as marcas na pele começavam a incomodar, mas logo retornou seu foco para o espelho outra vez.
Mudou a música de sua playlist (de: I don't love you -MCR / para: Over now - Submersed) e começou o processo de tingimento.

Viu seu cabelo castanho avermelhado desbotado tomar cor e ficar mais escuro, até atingir a tonalidade certa de preto aos poucos " isso tudo por causa de um garoto idiota" dizia consigo entre uma madeixa com tinta e outra.
Ao término dos 20 minutos infindáveis, rumou para o banheiro, para começar a etapa de "enxague".

Cansou de chorar daquela forma, pois estivera naquela situação outras vezes... Retirou o excesso da tinta, sentou no chão do banheiro e recomeçou a chorar silenciosamente sob a água que caia quente em sua cabeça.
A cada lágrima que caía, vinha uma lembrança em sua mente;
Primeiro, vinham coisas de antes dele: suas amigas, o dia do seu batismo na igreja que frequentava desde pequena, e como estava feliz antes desse um ano começar. Lembrou-se de como demorou pra se recuperar dos outros baques, e dizia que não sofreria daquela forma nunca mais.
Depois, vinham as lembranças dele; claras como cristal: O dia em que ficaram juntos no churrasco da família dela em meio à bagunça, piadas e trocas de confidências; a 1º vez que viram uma estrela cadente juntos, onde parecia que até mesmo Deus era cúmplice dessa história de amor inusitada; lembrou-se de como ele olhava pra ela como se a mesma fosse o seu bem mais precioso, as palhaçadas que compartilharam, as tombadas no meio da rua, o dia do batismo dele, as promessas de amor eterno... E depois começaram a surgir as imagens ruins que tanto sufocavam-na : As marcas de unha nas costas resultados do ciúmes excessivo, as brigas e todas as vezes que ele desligara o telefone em sua cara, e o inevitável fim, as novas imagens dele com outra, fazendo as mesmas coisas que fizeram um dia quando estavam juntos...
Ela riu sombriamente " E a história se repete.. 1, 2, 3 vezes... ", pensou em voz alta.
Terminou seu banho, saiu com coragem do banheiro encarando o choque térmico da sauna que o banheiro havia virado para o frio cortante do lado de fora que entrava pela janela à esquerda.
Vestiu-se e olhou no espelho outra vez.

Apesar da cara inchada, não se parecia nem um pouco com a garota que vira a apenas 30 minutos antes, olhando nos mesmos olhos.
Via uma garota magra, com uma cascata de cabelos pesados e pretos caindo no meio de suas costas, tudo proporcional; seus lábios eram como que desenhados, carnudos e com um tom leve de rosado, olhos castanhos intensos e profundos... A pele morena meio pálida, porém atraente e saudável aos seus olhos... Percebeu que estava olhando para si de verdade pela 1º vez em semanas, gostou do que viu, e sorriu.
Vestiu-se o melhor que pôde, alisou os cabelos, passou um pouco de delineador nos olhos e um pouco de blush para amenizar a palidez, pôs seu all star surrado, jogou a mochila sobre os ombros, pegou a sacola com os ursos de pelúcia, respirou fundo e saiu porta afora.

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

Damn pt 2

Enquanto via o fogo consumir todas as lembranças, seu coração balançava feito escola de samba. Talvez tivesse se arrependido de queimar todas as coisas, mas na verdade, sabia que era o certo a se fazer.

Uma conversa entre amigos ia e vinha em sua mente : "você ficou acomodada, e acostumada a estar sempre com alguém... Por acaso você sabe viver sozinha? Quer dizer, sem precisar depender de terceiros e achar que sua vida depende de alguém? Enquanto você não aprender a se virar, se amar, sem ninguém, então nunca vai ser suficiente quando você estiver com alguém"... Vai ver era por isso que estava péssima desse jeito.

Deu meia volta, e estava indo embora, quando uma lasca de papel queimado caiu aos seus pés.
Ela reconheceu a caligrafia, tinha apenas dois anos que havia recebido o poema... E pode ler no papel com as bordas torradas "ainda descubro o que o teu coração quer// e farei de você para sempre minha mulher".
As lágrimas sufocaram-na, com uma intensidade forte o suficiente para derrubar até mesmo o homem mais insensível da terra...
Tapou a boca com a mão, e respirou com dificuldade, faltou fôlego, e as lágrimas saltavam de seus olhos com a facilidade de uma cachoeira, baixou a cabeça e direcionou seu corpo para o chão a apanhar o pedaço de papel.
Pegou-o, leu-o e releu pelo menos três vezes a mais. Juntou o pedaço queimado junto ao colo, ergueu os olhos e disse em voz alta : '' Deus, talvez hoje você não goste mais tanto de mim quanto gostou um dia, mas se eu ainda puder te pedir qualquer coisa, peço que leve e tire de mim toda a mágoa e toda a dor. Eu só quero esquecer...".
Ainda agachada no chão, encolheu-se num abraço solitário... Logo uma brisa soprou, secando suas lágrimas e bagunçando seu cabelo, levantou-se do chão, respirou fundo, e sentiu de toda a sua alma que aquela brisa era Deus, respondendo que tudo ficaria bem.
Seu coração ficou um pouco mais leve, e assentiu com a cabeça deixando um sorriso amarelo esboçar em seu rosto. Ela acreditava que tudo ia dar certo.
Olhou mais uma vez para o papel e beijou-o enquanto deixava mais uma lágrima solitária correr por sua face, respirou fundo mais uma vez, e jogou o pedaço de papel de volta ao fogo. Viu a chama consumí-lo por completo, virou novamente, dando as costas para o fogaréu e seguiu rumo a sua casa, sem olhar pra trás.

Damn

Não houve dor.

A pequena linha escarlate apareceu no lugar onde antes fora passada uma lâmina afiada. O corte não fora profundo. Era apenas o suficiente para lembrar-se de que ainda sentia algo, nem que fosse um pouco de dor.
Mas nem mesmo essa se apresentou.
O corte ficou mais fundo, e ainda assim não era possível que ela sentisse algo. A lágrima descia pelo rosto, levando consigo cada lembrança boa que houvera um dia...

Existem aquelas dores que não conseguimos nem mesmo nomear. E a dor física provocada por aquela lâmina uma vez amenizou a dor interior. Mas agora, nem mesmo o corte a fazia esquecer...

Olhava em volta de seu quarto bagunçado, parecia diferente, e faltava algo. Muitas coisas que não deveriam estar ali, e o que deveria estar... não estava, já a muito tempo.
Houve um tempo, em que gostava de lembrar das coisas boas, chorava de saudade delas, aquelas lágrimas que desciam queimando, e fazia com que necessitasse de remédios para adormecer. Hoje não mais...
Ele mexera na última lembrança, aquela que não deveria ser apagada. Mexeu aonde não devia.
O sangue pulsava, e caia quente sobre o lençol. A lâmina pedia insistente por um pouco mais.
Ela cedeu.
Perfurou mais fundo sua pele, deixando que cada gota levasse embora sua dor. "hoje nosso amor foi esquecido, e lavado no meu sangue"...

A garota estava encolhida sobre sua cama, e tocava insistentemente em seu celular "Damn, Damn, Damn /What I'd do to have you/Here, here, here/I wish you were here/Damn, Damn, Damn/What I'd do to have you/Near, near, near/I wish you were here "... Sabia que ouvir aquilo não amenizaria sua dor, mas ainda assim, confortava-a saber que em algum outro lugar, alguém sentia a mesma coisa que ela estava sentindo ali, enquanto estava encolhida em forma de bolinha, deixando a pele sangrar, e os olhos tomarem aquela ardência familiar de quem passou um bom tempo chorando.

Passado um tempo considerando se sairia dali ou não, levantou-se da cama pegou o celular tocando e colocou-o no fone para ouvir, juntou suas forças, o que seria para ela um esforço bem grande, afinal, não comia há dias, bebericava apenas da sua garrafinha d'água ao lado da cama quando sentia sede. Enfim, saiu dali juntando consigo tudo o que possuía, e que trazia as lembranças que ela então lutaria com todas as forças para esquecer.
Trouxe as cartas, desenhos, fotos e tudo o mais que pudesse lembrar daquele período vivido, como um sonho e que teve de acordar e dar de cara com o chão, que sumiu de seus pés quando se viu sozinha.
Levou um tempo para que a vertigem passasse, e ela se acostumasse com a vista turva do dia.
Pegou um pequeno isqueiro que seu pai guardava no armário, e uma garrafa de álcool. Tropeçava nos passos, mas ainda assim, respirou fundo e seguiu para o terreno baldio nos fundos de sua casa...

Estava um dia claro, mas nublado. Não havia um único raio de sol sequer, e eram apenas uma da tarde, mas parecia que todo o dia já havia acabado. Seguiu em meio a lama sujando seu All Star.
O terreno era abandonado, apenas a cerca de arame farpado poderia dizer que alguém possuía ou se importava com aquele terreno. Sentiu uma simpatia por ele, porque de certa forma sentia-se assim também.
Ultrapassou a cerca de arame arranhando um pouco a pele, deixando mais algumas gotas de sangue pra trás "viu, estou mesmo dando o sangue por isso", bufou; e seguiu rumo ao baldão de de plástico na extremidade esquerda do terreno.
Era uma cena engraçada de se assistir : Uma garota de vestido listrado preto e branco, curto porém grande demais para seu tamanho (talvez ela tivesse emagrecido o suficiente para que suas roupas ficassem folgadas), usando All Star de cano alto andando num terreno baldio em meio a lama e os chuviscos chatos de chuva, pelo menos três sacola cheias de papéis penduradas no seu braço e mão esquerda, e na outra mão segurava o vidro de álcool e o isqueiro.

O baldão tinha um cheiro fétido, de lixo, misturado com água podre e mais aquelas coisas velhas que ficam muito tempo sem que alguém mexa.
Ela teve que prender um pouco a respiração quando chegou perto, fechou os olhos e considerou se haveria melhor forma de fazer isso. Decidiu que não, abriu os olhos e soltou a respiração. Colocou seus objetos no chão e virou o baldão para que pudesse tirar toda a água de lá.
Voltou o baldão à sua posição normal, e sem mais hesitar, despejou as sacolas e todo o seu conteúdo lá dentro.
Uma desenho caiu virado pra cima. Era ela, ele havia feito... Desenho antigo, mas aqueles olhos eram reconhecíveis em qualquer lugar...
Sentiu seus próprios olhos se enxerem d'água, e o coração voltou a sentir o aperto familiar da dor. Sim, estava finalmente se desfazendo de cada lembrança boa, e dessa vez era pra valer. E seria como se ele jamais tivesse entrado em sua vida.
Como se ele nunca tivesse aberto nenhum buraco em seu peito. Ela queimaria cada lembrança.

Abriu o vidro de álcool e despejou-o também sobre as folhas caídas no baldão. O cheiro forte de álcool invadiu suas narinas e ardeu. Os olhos lacrimejaram um pouco, então ela pegou o isqueiro e queimou a ponta da folha que estava na sua mão. A folha do desenho.
Observou o fogo consumi-la aos poucos, e com o coração cheio de dor, colocou a folha com o restante que estavam jazidas no baldão, banhadas em álcool.
Não demorou muito para que tudo já estivesse em chamas.
Ela ficou parada, observando tudo queimar. Igual ao seu peito. Igual às lágrimas...

[...] cont. . .

terça-feira, 6 de setembro de 2011

Marcas

Quando o conheci, ou melhor dizendo, quando deixei-o entrar em minha vida, eu tinha uma verruga no joelho. Verruga essa que eu ficava cutucando pra ver se ela ia sair.

Ele dizia: "para de cutucar suas feridas internas igual tu faz com a tua verruga, é por isso que não sara nunca".
E hoje vejo que devo ser algum tipo louco de masoquista. Eu sei que vai doer, e ainda assim me jogo de cabeça. Eu sou assim.

E aí, quando tudo acaba, ficam aquelas marcas profundas no peito. Onde parece que alguém enfiou a mão no nosso coração, arrancou, apertou, esfaqueou,  jogou no chão e pisou em cima. (HAEIUAHEIUAHIUEHIAHE q drama)... Mas é verdade...
Até parece que o coração dói de verdade.. hahaha ninguém admite, mas é

E, pra diminuir um pouco a dor interna, a gente simplesmente exterioriza.
A dor externa, o sangue, a pele que corta, é uma dor diferente, mas aplaca um pouco aquela dor esmagadora.
Eu sei o que é sentir isso..
É uma válvula de escape. remédios também. :)

Se usar de uma dor externa diminui tanto o vazio no peito.
as vezes, o que eu mais queria era sair a louca por aí, e dar a sorte de aparecer em meio a um tiroteio.. só pra ver se alguma bala perdida iria me atingir, e conseguindo finalmente me arrancar desse mundo. xD

A gnt não pode querer se matar, na verdade não é.. E como EU, não posso fazer isso, bom seria que Deus olhasse pra mim, e deixasse eu me unir à Ele. ;)
 Ir pra um lugar onde ele enxugaria minhas lágrimas, e seria dia todo tempo, não haveria trevas, e nem dor, nem mentiras, nem sofrimento...

eu queria mesmo, era adormecer pra sempre.
e fugir. É verdade, eu sou covarde, e sofrer por amor nem é um sofrimento digno.
então...

whatever.