"NADA NOS DEIXA TÃO SOLITÁRIOS QUANTO OS NOSSOS SEGREDOS" - Paul Tournier

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

Eu corri



Talvez eu estivesse correndo rápido demais, e não consegui perceber muita coisa na minha frente.
Eu sabia que a estrada estava perigosa, e que ainda chovia. As vezes a chuva é minha melhor companheira, eu gosto de como ela me refresca depois de um dia quente. Me lembrando que depois do calor infernal, vem aquela chuvinha, aquelas gotinhas milagrosas, que me fazem sentir viva. eu gosto daquilo.
Eu sempre fui boa condutora. Eu gostava de conduzir as coisas, de achar que eu mantinha sempre o controle de tudo nas mãos. Minha vida inteira fui assim.. E nem sequer
percebi, que todas as coisas saíram do rumo... me perdi, e perdi o controle de tudo.
E aqui estou eu, na chuva correndo com a moto, torcendo pra que alguma luz apareça no meu caminho, e me tire do abismo que eu caí..
É um lugar ruim. Vazio, escuro, sem vida. E é a minha vida.

Em poucos segundos, uma luz entrou na mesma mão que eu dirigia. e então, senti uma força muito forte me tirando da moto. Aconteceu tudo muito rápido. A moto que se destroçou no encontro com o outro carro, que tombou... eu jogada no acostamento, com alguns ferimentos leves e superficiais, outros nem tanto. Havia
lugares em que a dor era insuportável, mas eu mal conseguia perceber o que havia acontecido.
Achei que estava bem, até porque, estava com o capacete... mas perdi qualquer força que eu tinha, quando tentei me levantar.. Subiu aquela sensação de falta de oxigenio no cérebro, e minha visão se apagou. Eu caí.

Eu fui me afastando daquela cena do acidente... Das pessoas de dentro do carro que foram jogadas pra fora... o carro e a moto destruídos.. o desespero. Tudo foi-se apagando da minha mente... e eu só procurava chegar ao clarão em frente aos meus olhos...
Era um lugar aconchegante. Como uma brisa.
E, imaginei se eu pudesse estar sonhando...

Eu estava numa campina, deitada sob uma arvore, e fazia sol, mas não estava calor. Havia uma cachoeira por perto, o barulho da água era bom. acalmava. eu olhei ao redor, e havia mato, campo, animais, até aonde alcançava a vista.. Parecia com os lugares que meus pais me levavam no interior quando eu era criança. Havia uma casinha ao longe. Subia fumaça da chaminé. eu me senti tentada a ir lá.
Criei coragem, levantei-me da sombra fresca da árvore e segui em direção a casinha... E havia alguém na porta... Eu tentava me aproximar, mas quanto mais perto eu chegava, mais longe a casinha ficava... E, como uma brisa, tudo se foi, e mais uma vez me senti cair naquele abismo. Vazio.

E voltei aquela cena.
Agora haviam para-médicos, e policiais. ouvi algo sobre a criança no banco de trás ter falecido... Eu quis chorar... Mas não foi minha culpa....
E até agora, não entendi como foi que saí tão rápido daquela moto. Eu, que procurava tão ansiosamente pela morte. queria que ela me achasse... passei a um triz dela, mas até ela me rejeitou.

fechei os olhos cansados e adormeci sem perceber.
se eu pudesse, teria trocado de lugar com a criança. . .

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